as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008
PUXÃO DE ORELHAS

 

 

Em finais de Agosto (29), na sua residência em Sochi, Vladimir Putin recebeu os representantes de alguns órgãos da comunicação social da Rússia, entre os quais o chefe de redacção da rádio “Ecos de Moscovo”, Alexei Venediktov.  “Ecos de Moscovo” (EdM) é considerada um dos poucos baluartes que ficaram da informação livre. De acordo com o que foi referido por alguns dos presentes, Venediktov foi “chamado à pedra”. Putin mostrou-lhe a gravação de extractos de reportagens feitas durante a guerra na Geórgia. “Você vai ter que responder por isto”, ter-lhe-ia dito Putin. Segundo informações da Imprensa russa e não só, já houve algumas medidas de “segurança” na EdM, para evitar críticas ao governo que ultrapassem os limites da tolerância. Na opinião de várias pessoas ligadas à informação, a guerra da Geórgia vai trazer um novo aperto na pressão que se mantém sobre os órgãos de comunicação.

            A propósito da liberdade de expressão na Rússia, durante os dois mandatos de Putin, deixo aqui alguns extractos duma entrevista que fiz a Alexei Venediktov há cerca de um ano.

 

 “O problema número 1 é absolutamente jurídico, durante a presidência de Putin, em várias leis que diziam respeito aos meios de comunicação, foram tomadas cerca de 40 emendas, em diferentes leis, lei sobre a publicidade, lei sobre as eleições, lei sobre os meios de comunicação, lei sobre o combate ao terrorismo, em todas estas leis havia pontos que diziam respeito ao jornalismo. Todas estas 42 emendas foram repressivas em relação aos jornalistas. Todas as 42 emendas limitam a possibilidades de trabalho dos jornalistas e limitam a possibilidade de o público receber informação. Não houve nenhuma emenda a uma lei que tivesse alargado as possibilidades de fazer chegar a informação às pessoas. Este é um facto objectivo. Este é o primeiro ponto, e daqui é fácil perceber que as nossas possibilidades durante estes 8 anos diminuíram. O segundo ponto consiste no facto que a prática mostra que os casos em tribunal do Poder contra os jornalistas, dos governadores contra os jornalistas, dos presidentes da câmara contra os jornalistas, dos deputados contra os jornalistas, em quase 95% dos casos, levam à derrota dos jornalistas. Isto não é só porque aqui os jornalistas trabalham mal, é a prática jurídica que assumiu uma atitude negativa em relação à liberdade de imprensa. No entanto, todos os casos que os jornalistas levam ao Tribunal Europeu, vencem, todos, 100%. Parece-me que houve 8 casos de jornalistas, durante estes 8 anos, 7 ou 8 casos, e todos ganharam, enquanto que na Rússia perderam. Isto são factos. O terceiro ponto é o domínio do Estado sobre a televisão. Quando Putin chegou ao poder, na Rússia havia 4 canais estatais, ou semi-estatais, e dois privados (em seis). Agora todos os seis canais de âmbito nacional são controlados pelo estado ou por entidades quase estatais. Eis três factos objectivos, não é uma opinião minha nem uma minha avaliação, são factos. Naturalmente tudo isto reflecte a relação pessoal do presidente para com o jornalismo. Quando Putin chegou ao poder encontrámo-nos, e falámos muito, sobre o papel dos jornalistas, sobre o papel do poder e sobre o papel da Rússia, e eu fiquei com a impressão que Putin, sinceramente, isto é muito importante, sinceramente, pensa que os jornalistas são um instrumento. Não são uma instituição da sociedade, mas um instrumento do proprietário. Se o proprietário é bom, então o instrumento... por exemplo um machado, serve para construir uma casa. Mas se o proprietário é mau, então o instrumento, o machado, pode matar. Para Putin, a propriedade dos jornalistas e do jornalismo são um meio para atingir um fim, muito nobre, a grandeza da Rússia, a unidade da Rússia, não importa. Nesta relação de Putin (com o jornalismo) como um instrumento, baseia-se tudo aquilo de que eu falei antes. Um mau instrumento é deitado fora, NTV... Isto é objectivo, não há aqui nenhuma opinião, são factos...”

“...Eu penso que uma das causas principais pela qual a EdM continua a existir é que, ao contrário da televisão, nós não somos uma ameaça eleitoral para Putin, e Putin percebe isso bem. Nós não somos uma estação da oposição, somos uma estação da informação. Não fazemos guerras de informação, não apoiamos nenhum partido nas eleições, nem os de esquerda, nem os de direita, nem os do centro. Somos uma estação de informação e Putin sabe bem isso. Nós não podemos influenciar a massa dos eleitores, temos como ouvintes, em toda a Rússia, cerca de 2,5 milhões todos os dias. Não são assim tantos em comparação com cem milhões de eleitores, não somos uma ameaça. Em terceiro lugar, nos nossos estatutos está escrito de maneira muito clara que pela política da redacção responde só o redactor chefe. Por isso eu só o único ponto onde se pode fazer pressão. Nem os accionistas, nem o conselho de directores, nem o director geral, só o redactor chefe. É assim que está escrito nos estatutos. Como os jornalistas da EdM têm um pacote de acções que é suficiente para bloquear, e a Gasprom não pode alterar os estatutos sem o nosso acordo – eles têm 66% e nós 34% - para mudar os estatutos são necessários 75%...”

“... Por isso, alterar os estatutos não se pode, e por isso o único ponto de pressão sou eu. Não se pode obrigar os jornalistas a fazerem uma coisa qualquer, porque sempre que alguém telefone a querer qualquer coisa a resposta é “telefone ao redactor chefe”. Mas os meus telefones funcionam mal... As ligações são péssimas... E ainda outra coisa. Sem dúvida, nós somos a montra para o Ocidente, para a opinião pública ocidental, para mostrar que na Rússia existe liberdade de expressão. E eu sei que, sempre que apresentam queixas a Putin, da parte dos parceiros da Europa ocidental, da UE e dos americanos, ele cita a EdM, “todos vocês passam pela EdM”, que me criticam livremente, etc. Deste ponto de vista ainda somos cómodos. Portanto, há um complexo de causas.

“Por isso quando vêm alguns parceiros de Putin, nós temos sempre prioridade para as entrevistas. Se vem a Condoleezza Rice, o primeiro-ministro da GB, ou Barroso, a EdM é sempre a nº 1. Há uma piada que me contou Jacques Chirac. Antes quando se vinha à União Soviética, havia sempre 3 pontos onde tinham que ir os altos convidados: o Kremlin, o Mausoléu, e o Bolchoi. ‘Agora no lugar do Mausoléu estão vocês. Kremlin, EdM e Bolchoi’.”

 



publicado por edguedes às 12:25
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