as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
ANNA POLITKOVSKAIA. DOIS ANOS DEPOIS

 

 

Passaram-se dois anos desde que Anna Politkovskaia foi assassinada à saída do elevador da sua casa. Hoje houve uma manifestação na praça Puchkin, em Moscovo, para recordar a jornalista e para sublinhar que há quem queira ver os resultados das investigações da polícia. Pensei em passar por lá, em sinal de homenagem a Anna Politkovskaia. Chovia e estava à espera de que houvesse muito pouca gente. Mesmo assim haveria umas 300 pessoas na praça. Polícias eram certamente muito mais. Entre as pessoas que tomaram a palavra havia colegas, defensores dos direitos humanos e alguns políticos, estes todos da área liberal, que quase perdeu completamente a expressão (Mikhail Kassianov, Boris Nemtsov, Garry Kasparov, Leonid Gozman). Acabei por ficar até ao fim. A coisa que achei mais interessante foi uma antecipação de um filme sobre Politkovskaia. O resto das informações novas já tinha saído na “Novaia Gazeta” onde a Anna trabalhava.

            Saiu uma entrevista com o investigador principal que tem estado a seguir o caso, Petros Garibian, do Comité de Investigação da Procuradoria-Geral da Rússia, em que se precisa alguns pontos. O caso foi enviado para tribunal e o processo poderá ter início no próximo dia 15 no Tribunal Militar do Círculo de Moscovo. Garibian explicou que foi parar a um tribunal militar porque há um dos figurantes, o tenente-coronel Riaguzov, que é do FSB (Serviço Federal de Segurança). Há o risco de o caso vir a ser um julgamento à porta fechada, dado que há documentos “secretos” que dizem respeito a Riaguzov e a Khadjikurbanov, este ex-agente da Direcção de Investigação Central para o Combate ao Crime Organizado. Segundo Garibian, não há provas de que Riaguzov esteja ligado ao assassínio de Politkovskaia, mas Khadjikurbanov é acusado de ser o organizador. Ambos figuram como réus num outro caso, de extorsão, por isso, os dois crimes ficaram ligados num único processo...

            Garibian afirma que o quadro de como as coisas se passaram está relativamente claro. Os quatro figurantes que são acusados de envolvimento directo no crime são Serguei Khadjikurbanov e os irmãos Makhmudov, mais precisamente Djabrail, Ibraguim e Rustav, originários da Chechénia. Rustav seria o autor dos disparos, enquanto os outros dois irmãos ajudaram a seguir a vítima e informaram o “killer”. Rustav Makhmudov anda a monte, não se sabe onde. Garibian disse à Novaia Gazeta, que mesmo que soubesse onde ele estava não o diria. Consta que ele conseguiu fugir para fora da Rússia quando algumas informações sobre o andamento das investigações “escaparam” para os jornais. Segundo Garibian, o crime foi ensaiado previamente, e as imagens das video-câmaras de segurança mostraram que uma vez o assassino deu de caras com Anna Politkovskaia ao abrir a porta da entrada do prédio. O investigador é da opinião de que os três que estão presos, assim como o executor do crime, agiram simplesmente por dinheiro, por isso ainda falta a parte mais importante das investigações, que é descobrir quem encomendou o crime. Quanto a saber coisas dos que já estão presos, considera que é muito difícil. “Acha possível que irmãos, de etnia chechena, possam testemunhar uns contra os outros?”, replicou Garibian à pergunta do jornalista, sobre a disponibilidade dos detidos a colaborar com as investigações. No entanto, o investigador afirma que as investigações não pararam e que o processo teve de avançar com as acusações contra os que já estavam detidos, para respeitar os tempos previstos pela lei russa. “Nós ainda estamos a trabalhar em toda a cadeia (de factos). Ainda vão ser chamadas à responsabilidade outras pessoas, se nós conseguirmos descobrir e provar a sua culpa. Tudo isso será num processo à parte”, refere Garibian.

            No entanto, os familiares e colegas de Anna Politkovskaia insistem no facto de que o processo deve ser aberto. Há muitos precedentes da justiça russa em que a transparência não é a nota dominante, e um processo à porta fechada é meio caminho andado para não se chegar a saber quem é que estava por detrás do assassínio de Anna Politkovskaia.

 



publicado por edguedes às 16:32
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