as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008
RECORDANDO SAKHAROV

 

 

Andrei Sakharov morreu a 14 de dezembro de 1989. A data foi lembrada por alguns órgãos de informação russos, mas não foi um acontecimento de grande relevo. Não querendo deixar passar a data sei recordar o grande físico e defensor dos direitos humanos, transcrevo aqui alguns trechos de um artigo que escrevi já há algum tempo, mas que me parece continuar a ser actual...

Algumas iniciativas sublinharam a recordação do físico brilhante e prémio Nobel da Paz que ousou desafiar o poder soviético, mas as pessoas que o conheceram acham que se Sakharov fosse vivo, ainda hoje continuaria a ser uma voz incómoda para o poder.

Andrei Sakharov nasceu numa família da “inteligentsia”, e herdou a sua vocação para a física do seu pai, Dmitri, que era também físico. Na árvore genealógica de Sakharov, reconstruída pacientemente por Elena Bonner (a sua segunda mulher), encontram-se várias gerações de sacerdotes ortodoxos, do lado do pai, e de militares, do lado da mãe. A conservadora do “Arquivo de Sakharov”, Ekaterina Shikhanovitch contou-me que, “na sua infância, o pequeno Andrei acompanhava frequentemente a avó à liturgia, na igreja de Cristo Salvador (posteriormente destruída por Stalin e recentemente reconstruída). Um dos trabalhos levado a cabo pelo arquivo foi de realçar as origens de Sakharov, “porque a personalidade está sempre muito ligada às origens”. O arquivo continuou a crescer durante largos anos, sobretudo com documentos aos quais ia sendo retirada a classificação de “secreto”, dado que uma boa parte dos trabalhos científicos de Sakharov estavam vinculados pelo segredo de estado. 

Já nos bancos da Universidade, Sakharov distinguiu-se pela sua inteligência brilhante, e aos 24 anos foi convidado a trabalhar no grupo do físico teórico Igor Tamm, no Instituto de Física da Academia das Ciências. A Equipa de Tamm foi envolvida no trabalho para o desenvolvimento da “bomba de hidrogénio” e a contribuição de Sakharov foi tão importante que alguns o consideram “o pai da bomba-H soviética”. Na altura vivia-se a corrida aos armamentos. “Então estávamos todos convencidos da importância daquele trabalho para manter o equilíbrio de forças no mundo”, escreverá mais tarde Sakharov. Com 32 anos Sakharov foi eleito membro da Academia das Ciências da URSS. Segundo Bela Koval, directora do Arquivo, “ele nunca teve remorsos por ter trabalhado no projecto da bomba”. Em 1955, depois de um dos testes da bomba, cientistas e militares reuniram-se para festejar o sucesso, em casa do general Nedelin. Quando, à boa maneira russa, chegou a sua vez de brindar, Sakharov levantou o cálice e propôs que se bebesse “para que os nossos engenhos expludam com sucesso só em polígonos experimentais e nunca sobre cidades habitadas”. No ar ficou um certo embaraço. 

Poucos anos depois, o cientista, que já tinha recebido a medalha de ouro de “herói do trabalho socialista”, dá início a uma campanha contra as experiências de explosões nucleares. Depois de dois anos de conflitos e frustrações, em Novembro de 1962, recebe um telefonema do ministro E. Slavski: “a sua proposta despertou grande interesse a alto nível, provavelmente será dado algum passo”. No ano seguinte foi assinado em Moscovo um acordo entre os EUA e a URSS, sobre a proibição de realizar experiências nucleares na atmosfera, no mar e no espaço. Na suas notas, Sakharov escreveu “orgulho-me de ter dado uma contribuição para o acordo de Moscovo”. Nos anos seguintes começa a luta pelos direitos humanos na URSS. É um dos autores da carta colectiva ao XXIII Congresso do PCUS, contra o retorno do culto de Estaline, e dirige-se às autoridades protestando contra as perseguições por “convicções”. Manifesta-se ainda pela abolição da pena de morte. Em 1966 aparecem os primeiros documentos escritos pelo cientista em defesa das vítimas da repressão. Em 1968 publica as “Reflexões sobre o progresso, a convivência pacífica e liberdade intelectual”, traduzido em vários países. Depois disso foi afastado dos trabalhos que pudessem estar ligados a “segredos de estado”, e não pode mais entrar da cidade “nuclear” de Arzamas-16 (hoje Sarov), mas pode ainda continuar a sua actividade científica em Moscovo. Em 1969, dá quase todas as suas economias para a construção de um hospital oncológico e, mais tarde, usa o dinheiro de um prémio internacional para criar a fundação “de apoio aos filhos dos prisioneiros políticos”. 

O grande confronto com as autoridades soviéticas dá-se quando se levanta a questão do envio de tropas para o Afeganistão. Sakharov opõe-se categoricamente em público e, em Janeiro de 1980, é mandado para Gorki (hoje Nijni Novgorod), onde teve que viver num semi-isolamento. Entre outras coisas, a cidade era vedada a estrangeiros. Em Dezembro de 1986, inesperadamente, apresentam-se técnicos para montar o telefone no seu apartamento. No dia seguinte um telefonema directamente de Mikhail Gorbatchov anuncia-lhe o fim do exílio.

No entanto, a “perestroika” não é ainda a reforma que pretendia Sakharov. Eleito deputado pelo círculo da Academia das Ciências, continua a lutar pela eliminação do artigo 6 da Constituição, que define o papel dirigente do PCUS. Num projecto de uma nova Constituição da “União das Repúblicas Soviéticas da Europa e da Ásia”, em Novembro de 1989, Sakharov define como objectivos do Estado “a vida feliz e cheia de sentido, a liberdade material e espiritual, o bem-estar, a paz e a segurança, para os cidadãos do país e para toda a gente da Terra”. Na introdução, para além de afirmar o pluralismo e a tolerância, explicitava a proibição da pena de morte. Sakharov morreu poucos dias depois. Dois anos mais tarde, foi a vez da URSS deixar de existir.

 

 



publicado por edguedes às 12:57
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