as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009
TODOS ABSOLVIDOS

 

Os jurados assim decidiram, por unanimidade, que todos os acusados no caso do assassínio de Anna Politkovskaia estão inocentes ou, pelo menos, a sua culpa não foi demonstrada na aula do tribunal. Os irmãos Ibraguim e Djabrail Makhmudov, o ex-agente da polícia Serguei Khadjikurbanov e agente do Serviço Federal de Segurança, Pavel Riaguzov, foram postos em liberdade directamente na sala do tribunal.

Enquanto esperávamos pela conferência de Imprensa da parte lesada, ou seja, os filhos de Anna Politkovskaia, Ilia e Vera, os respectivos advogados, Karina Moskalenko e Anna Stavitskaia, assim como o chefe de redacção da “Novaia Gazeta”, Serguei Sokolov, fomos trocando impressões com os colegas. Ao meu lado estava uma jornalista da “Gazeta.ru” que seguiu o processo quase todo. Na sua opinião a acusação conseguiu apresentou poucas provas. Havia grandes dúvidas sobre quem eram os homens que aparecem no video de vigilância que teria filmado o assassino, as listas de telefonemas dos acusados foram modificadas mais do que uma vez, etc. “Se estivesse no lugar dos jurados o que teria decidido”, perguntei. Ela pensa, “se calhar teria considerado não provada a culpa”. Na sua opinião os representantes da Procuradoria não estão habituados a trabalhar com o colégio de jurados, e enquanto os juízes em geral aceitam tudo o que os procuradores lhes dizem os jurados são mais desconfiados e têm que ser convencidos.

(na fotografia: Vera Politkovskaia, Ilia Politkovski e Karina Moskalenko)

 

Foi mais ou menos nesses termos que se pronunciou a advogada Karina Moskalenko. Declarando que o processo tinha sido leal, que a defesa tinha trabalhado de forma mais eficaz. Nada de atribuir culpas aos jurados, nada de fazer acusações contra os réus. Foram absolvidos é tudo. Os representantes da Procuradoria e os investigadores deixaram o trabalho a meio. O chefe da redacção da Novaia Gazeta, Serguei Sokolov, foi mais directo alegando que não era jurista e podia dizer o que pensava. Pensa que os acusados tiveram ligação ao caso, mas não eram os principais intervenientes. Os investigadores tiveram de enfrentar imensas dificuldades quando no processo começaram a aparecer nomes de pessoas ligadas à polícia e ao FSB (Khadjikurbanov fora agente da polícia, e Riaguzov era do FSB). Na opinião de Sokolov os investigadores fizeram o que era possível. Já Karina Moskalenko era da opinião que não há que defender os investigadores, dado que eles não se lamentaram de que não lhes davam condições de trabalho, e não deixaram que a parte lesada pudesse ter acesso ao processo, na fase de investigação. A advogada criticou o facto de que os investigadores não verificaram todas as versões, nomeadamente Ramzan Kadirov que teria afirmado saber quem é que estava pro detrás do crime, não foi interrogado pela Procuradoria. Sokolov lembrou ainda as fugas de informação que se verificaram em várias fases do processo e que permitiram ao principal suspeito da execução do crime, Rustam Makhmudov, irmão de Ibraguim e Djabrail, de se pôr a salvo no estrangeiro, com passaporte falso. Na opinião do jornalista o caso foi para tribunal antes do tempo sem que as investigações estivessem devidamente fundamentadas. Quanto ao envolvimento dos réus no assassínio de Anna Politkovskaia, Sokolov está convencido que eles são cúmplices, e afirmou que teme pelas pessoas que testemunharam no processo.  

Tanto as advogadas como os filhos de Anna Politkovskaia, não se mostraram demasiado desiludidos com o resultado. Karina Moskalenko disse mesmo que pode ser uma situação mais vantajosa do que se alguns apanhassem uma pena qualquer, dado que isso poderia servir de desculpa à Procuradoria, alegando um resultado parcial. O resultado zero permite exigir que se retome as investigações.

                                                                                     (Serguei Sokolov)

 

Quanto à questão dos jurados posso acrescentar uma coisa. Anna Politkovakaia era decididamente a favor da existência de tribunais de jurados. Em 2004, no final de uma entrevista, falámos do caso do capitão Ulman, cujo julgamento (um deles, porque o caso acabou por voltar a tribunal) um dos primeiros na Rússia com jurados, tinha absolvido Ulman e outros militares, que eram acusados de terem morto e incendiado os corpos dentro do automóvel em que seguiam, cinco civis na Chechénia. Que eles tivessem cometido o delito não havia dúvidas, mas os jurados alegaram que eles eram militares e que cumpriam ordens, portanto não lhes podia ser imputada a culpa. Anna Politkovakaia, mesmo se admitia que “o nosso povo é assim”, e defende os seus (soldados russos) contra os outros (chechenos), continuava a defender que de qualquer maneira é preciso insistir no tribunal de jurados. 



publicado por edguedes às 22:15
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

VICTOR HUGO PONTES NO "IN...

RÚSSIA E POLÓNIA DEPOIS D...

RE-START

"SHAKHIDKA"

AINDA ATENTADOS

METROPOLITANO DE MOSCOVO ...

METROPOLITANO DE MOSCOVO ...

METROPOLITANO DE MOSCOVO ...

RECOMEÇAR

ASSASSÍNIO DE SACERDOTE C...

arquivos

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

tags

todas as tags

links
blogs SAPO
subscrever feeds