as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Domingo, 2 de Dezembro de 2007
VOTAÇÕES

Hoje votou-se na Rússia. A surpresa parece ser a entrada para o parlamento do Partido Liberal Democrático, de Vladimir Jirinovski, e do Rússia Justa, que é mais um partido criado nos bastidores do Kremlin. O Rússia Unida, com Putin à frente era mais ou menos de prever que andasse pelos 60%, que se vinha a anunciar, e os Comunistas com 11% ficam um bocado abaixo do que diziam as previsões, mas não muito.  Não obstante os “nãos” frequentes que obtive quando perguntava às pessoas se iam votar, parece que a afluência foi considerada alta, pelo menos mais alta do que em 2003. Já há quatro anos atrás havia a impressão de que o eleitor decidia pouco. Agora há a impressão de que já está tudo decidido. De manhã fui cumprir o meu dever de jornalista e meter o nariz num dos locais de voto. A primeira diferença que notei desde a última vez que tinha feito esta operação, foi um maior controle policial. Um à porta, dois na porta interior, outros que giravam pela sala. Um oficial que controlava a dita porta perguntou-me se ia votar. Eu disse-lhe que era jornalista estrangeiro e que vinha ver. Vê-se que a minha resposta fez entrar em acção o plano nº2. Pediu-me os documentos, leu-os três vezes e chamou um senhor à paisana. Penso que era do FSB (Serviço Federal de Segurança) que, como já me tinha constado, “coordenam” as forças policiais durante as eleições. Este voltou a ler atentamente o meu cartão de acreditação do MNE russo, e foi-me perguntando o que é que eu queria. A ideia de falar com o presidente da mesa de voto parece ter-lhe agradado, porque gente de pouca confiança é sempre melhor orientar para as autoridades. Como a senhora presidenta estava atrapalhada no meio de papéis e mapas, convidaram-me a sentar (ao lado de outro polícia, por via das dúvidas). Finalmente a presidenta lá se desenvencilhou, mas mal começou a dizer-me qualquer coisa, veio outra senhora dizer que a presença dela era necessária, imediatamente, noutro sítio e, gentilmente ofereceu-se para a substituir no interrogatório do jornalista português. Sinceramente, acho que não fiquei a perder com a troca, porque a vice-presidenta, Tatiana Reznik, como depois se apresentou, era mais faladora do que a chefa. Entre as coisa curiosas que me disse, eu sublinho a grande quantidade de pessoas que votam em casa. “Telefonam-nos de organizações como ‘Veteranos da Grande Guerra’ ou os encarregados da gestão dos prédios e nós mandamos lá uma comissão com a urna para que os idosos que têm dificuldade possam votar. A ideia até parece bastante humana, o que é mais curioso é que “10 a 15% das pessoas daquele bairro” votam assim. Depois disse-me que tinham sido pedidos muitos “talões de desvinculação”, um papelinho que o eleitor russo pede na sua comissão local, e com ele na mão pode ir votar onde bem lhe apetecer. O problema é que em muitas situações este sistema é usado não para o cidadão ir votar onde quer, mas onde o mandam votar. Várias organizações, escolas, universidades, etc., assim como empresas, obrigam os seus dependentes a irem votar num dado local de voto. Depois querem que o resultado que dali sai agrade a quem manda. A recusa pode ter consequências desagradáveis.... Enfim é outro tipo de democracia. Por isso, há muitos que pensam que votar ou não votar, o resultado é o mesmo, porque o importante não é como se vota, é como se conta.

            No entanto, devo admitir, que mesmo sem estas artimanhas todas, estou convencido que o partido Rússia Unida, liderado por Vladimir Putin, iria obter, de qualquer forma, a maioria, e provavelmente absoluta. Com mais razão, não se percebe porquê tanta pressão dos órgãos da comunicação social, e tanta concorrência para exibir a própria fidelidade ao Kremlin. Vê-se que quem está no topo nunca está suficientemente seguro de si. Os czares eram muitas vezes desconfiados, o espectro de eventuais golpes de estado pairava no ar, e as desconfianças viravam-se, frequentemente, contra os elementos da corte. O ex-conselheiro de Putin para os assuntos económicos, Andrei Illarionov, diz que destas eleições e das próximas presidenciais, vai sair um regime (mais) autoritário. Na Rússia costuma-se dizer “se vivermos havemos de ver”.


publicado por edguedes às 22:46
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