as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quarta-feira, 12 de Março de 2008
A CIDADE DOS MILIONÁRIOS

A imprensa russa está sempre muito atenta às notícias publicadas na revista “Forbes”. As últimas sondagens da Forbes indicavam que entre os cidadãos deste mundo cujas poupanças ultrapassam os mil milhões de dólares há 87 russos. Nesta competição, a Rússia vai em segundo lugar, depois dos EUA, com 469 (só!) ricões, e deixando para trás a Alemanha que conta com 59 “milhardários”. A este propósito devo queixar-me da falta da palavra adequada na nossa língua, talvez porque estas questões pouco afectem o nosso quotidiano. Os ingleses têm “billionaire”, os franceses “milliardaire”, os italianos “miliardario”, mas nós devíamos dizer “mil milionário” ou “milhar milionário”, dado que o "miliardo" não existe em português e o bilião fica três ordens de grandeza acima, apesar das confusões que aparecem em certas traduções do inglês... Bom, deixando as gracinhas de lado e voltando à Rússia. Outro ponto das notícias da Forbes que me chamou a atenção foi que Moscovo é a cidade no mundo com maior concentração de desses mesmos “milhardários”. Nada menos do que 74 espécimes. É claro que não são assim tantos que a gente corra o risco de se cruzar com eles nas escadas do metropolitano. No entanto, devo admitir que alguns sinais exteriores de riqueza se notam, mas provavelmente não são só esses 87, que (ainda segundo a Forbes) no ano passado só eram 55. Aliás, segundo “The Guardian”, que também se meteu a fazer as contas nos bolsos dos russos e encontrou mais alguns, haveria 101 “milhardários”, onde outrora era o núcleo duro da promoção da revolução do proletariado. Para além destes super ricos, há outros que não têm direito a estar nas listas da Forbes, porque são só milionários, mas se o dólar continuar a cair e o petróleo a subir, lá chegarão. O Centro de Estudos Estatísticos da seguradora Rosstrakh, descobriu que há mais de 200 mil famílias nas Rússia, cujos rendimentos ultrapassam o milhão de dólares por ano, e dizem que é aproximadamente o dobro do que havia há um ano atrás. Outro dado interessante é que a fortuna dos 500 russos mais ricos chega a 715 mil milhões de dólares, o que é mais de metade do PIB da Rússia.

            Numa rua, estreita por sinal, aqui ao lado de casa, há um restaurante, que dá pelo nome de “Cantineta Atenori”, onde se vêm à porta – dado que o restaurante não previu um estacionamento interno e privatizou uma parte da via pública – alguns desses sinais exteriores de riqueza. Às vezes um Rolls Royce prateado, outras vezes um preto, um Bentley (os Mercedes e Lexus são o mínimo para entrar no restaurante). E às vezes permite umas surpresas aos visitantes menos preparados. “Hoje vi um ‘Maybach!’”, dizia-me surpreendido um amigo suíço de passagem por Moscovo, mas enquanto a gente falava passava outro, como que a confirmar a normalidade das extravagâncias moscovitas.

            No entanto, toda esta ostentação convive com outra realidade que se encontra continuamente também nas ruas desajeitadas e nos prédios a pedirem reparações de Moscovo, para não falar já da Rússia interior. As “boas pensões de reforma” andam à roda de 3 mil rublos (85 euros) na maioria das cidades russas, e cerca de 5 mil (143 euros) em zonas privilegiadas, como Moscovo, onde o poder municipal acrescenta uns trocados, para que a reforma se aproxime do cabaz mínimo local. Uma sondagem feita pela Fundação da Opinião Pública em meados de 2005 (agora a situação pode ser ligeiramente melhor) indicava que 81% dos reformados recebia menos de 3 mil rublos (85 euros). Actualmente os reformados devem ser cerca de 20% da população total (143 milhões) o que corresponde a 28,6 milhões. Um estudo feito em 2004 indicava que 33% da população se encontrava abaixo do limite de pobreza. Esta situação tem tendência para melhorar, mas “melhora” muito mais rapidamente para os ricos do que para os pobres. O salário médio, na Sibéria, segundo a agência Regnum, é quase 12 mil rublos (340 euros). Em Moscovo ultrapassa os 20 mil (570 euros). Mas as médias enganam porque a diferença entre os rendimentos dos pobres e os dos ricos (também isto calculado fazendo médias de uns e de outros) difere de um factor de 17.

 

            Hoje o politólogo Serguei Markov, um dos mais fiéis defensores da política do Kremlin, que agora também é deputado, enunciou as principais “façanhas” de Vladimir Putin durante os dois mandatos. De acordo com Markov, os feitos são 1- a vitória militar no Cáucaso (leia-se Chechénia), 2- a vitória sobre os oligarcas e o controle sobre o petróleo e o gás, e 3- a vitória sobre a crise económica. Markov argumentou ainda, para elucidar a questão da vitória sobre os oligarcas, que “se naquela altura tivesse passado a proposta da Yukos (segundo Markov esta teria um forte lobby no parlamento russo) de não aumentar as taxas sobre o petróleo e o gás em proporção aos preços mundiais, todo o dinheiro que nós temos hoje teria passado ao lado do estado, dos reformados e teria ido parar às mãos de Boris Berezovski e outros oligarcas”.  

            Comparando a 2ª “façanha” de Putin, como lhe chama Markov, com os resultados da revista Forbes e outros, parece que há alguma coisa que não encaixa perfeitamente...


publicado por edguedes às 21:43
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