as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007
CÁUCASO DISTANTE

                                

De vez em quando chegam notícias alarmantes da Inguchétia. A mais recente foi a morte de um rapazinho de 6 anos durante uma “operação especial” levada a cabo pelas forças federais. Por forças federais entende-se geralmente, unidades especiais do exército russo, coordenadas pelo Serviço Federal de Segurança (FSB). De acordo com a narração das pessoas da aldeia de Tchemulga, na região montanhosa da Inguchétia, ao alvorecer, as forças federais cercaram a casa de Ramzan Amriev, arrombaram a porta, ordenaram a todos que se deitassem por terra, e começaram a disparar na por cima deles em direcção aos outros quartos da casa. No final, o pequeno Rakhim de seis anos jazia com um tiro na cabeça. Depois, fizeram sair todos para a rua, Ramzan, a mulher Raisa, as filhas Luisa e Lapiska de 17 e 11 anos, respectivamente e ainda o filho Orchtkho de 15 anos. A eles juntaram-se os vizinhos, num total de 22 pessoas, nas mesmas condições, alguns descalços, ou em camisa de noite, como os colheu a intervenção dos militares, enquanto viam um carro blindado investir contra a casa de Amriev.

 

Suspeito

 Conforme declarou ao jornal “Gazeta” o chefe da administração da aldeia, Aslan Amriev, os militares pressionaram-no para que declarasse que da casa de Ramzan tinham aberto fogo sobre os “federais”. A versão do procurador da Inguchétia, Iuri Turiguin, é que “as tropas especiais cercaram a casa de Ramzan Amriev e que, segundo eles, quando dispararam da casa sobre eles, abriram fogo em resposta, depoois, quando inspeccionaram a casa encontraram o corpo da criança com um ferimento de bala da cabeça”. O procurador teria acrescentado que o chefe de família, Ramzan Amriev, era suspeito de crimes graves, e que teria desaparecido depois da “operação especial”. De acordo com a “Gazeta”, estas afirmações do procurador provocaram várias reacções entre a população e os defensores dos direitos humanos. Muita gente esteve naquele dia com Ramzan Amriev, em que todos os dos arredores vinham manifestar-lhe as condolências pela morte do filho.

            Nos últimos meses ouve-se falar com regularidade das “operações especiais” na Inguchétia. Ora se fala de espancamentos em massa na povoação de Ali-Iurt, durante uma “operação de limpeza”. Ora se descreve uma “operação especial”, na cidade de Karabulak, em que foi apanhado e executado um “bandido” que, ao que parece se encontrava desarmado. Ora aparecem notícias de atentados que em geral visam elementos da polícia. E ainda os chocantes homicídios de civis de etnia russa. A impressão geral é que a espiral de violência continua a crescer e que, actualmente, a situação da Inguchétia é bastante mais séria do que na vizinha Chechénia.

 

Em Nazran

            No verão, tive ocasião de dar um salto à Inguchétia. Foi mesmo um salto, porque a visita durou algumas horas. Estava com um colega italiano na Ossétia do Norte e, apesar de desaconselhados por todas as pessoas de bom senso e por entidades oficiais, decidimo-nos mesmo a ir lá. “Para os marginais, vocês são dois sacos de dólares que andam a passear pela rua”, diziam-nos lembrando os raptos para exigirem resgates que, volta e meia, acontecem lá por aqueles lados. Depois havia o problema das tensões entre os ossetinos e os inguchos, que oficialmente tentam demonstrar que estão resolvidas, mas que na prática tornam muito difícil arranjar um táxi na Ossétia que esteja disposto a ir à Inguchétia. No entanto, o motorista que nos levou a Beslan, mostrou-se mais sensível ao lucro do que atento aos riscos: “eu sou armeno, não tenho problemas em ir a Nazran”. Telefonámos a Azamat, um contacto que me tinha sido recomendado por um colega de Moscovo, e lá fomos. Os representantes na Ossétia do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, que zelavam pelo nosso programa, voltaram a fazer muitas recomendações, inclusivamente instruções para o percurso que o táxi deveria fazer. O motorista armeno, sempre mais interessado pelo ganho do que pelo resto, foi pelo caminho mais curto, que era exactamente pela não recomendada região de Prigorodnie, uma parte da Ossétia habitada sobretudo por inguchos, que reivindicam a posse daqule território, e cenário nos anos 90 de sérios combates entre ossetinos e inguchos. A última povoação é Tchermen, a qual apareceu recentemente nos jornais pelo assassínio de três inguchos em condições pouco claras. Na “fronteira” o aparato de armamento e controle dá a entender que estamos para entrar numa zona sujeita a outras condições de segurança. Mas as horas que passamos em Nazran foram tranquilas e a conversa com Azamat, um filólogo que foi mineiro e deputado e agora se dedica a cultivar couves da sua horta, foi extremamente interessante:

            - os guerrilheiros estão a passar-se da Chechénia para a Inguchétia? “Parece que sim, há sinais que fazem crer que isso seja parcialmente verdade”

            - abusos dos militares? “basta ir perguntar às populações que sofreram operações especiais”

            - o governo da Inguchétia tem pouco apoio? “é fraco...”

            - diferenças entre os chechenos e os inguchos? “há muita coisa em comum mas os chechenos são mais ousados, não têm medo de morrer, os inguchos são mais cautos, para não dizer cobardes...”

            - o islão tem uma forte influência? “teoricamente sim, mas é compreendido de maneira própria com uma mistura de tradições anteriores à islamização e de costumes soviéticos”.

            - relações com os povos vizinhos? “prefiro pensar que são vizinhos, mas na Ossétia provavelmente falaram-vos dos inguchos com outros adjectivos”.

 

No aeroporto

            De regresso, no aeroporto de Beslan (é o principal da Ossétia do Norte), onde passamos várias horas devido a um atraso “normal”, vemos alguns homens à paisana de pistola à cintura. Uns preparam-se para apanhar o avião para Moscovo, outros fazem-lhes companhia. Com o passar do tempo a vodka começa a pesar nas reacções do grupo. “São FSBsnikis”, ouvimos o comentário da agente da polícia que controlava os passaportes e que a espera tinha levado para a mesa do café ao lado da nossa, quando um dos rapazes vem buscar mais uma garrafa. Será que a paz no Cáucaso depende deles?

 

            Diz-se que na Inguchétia, no dia 24 de Novembro, vai haver uma manifestação popular para protestar contra os abusos das autoridades. Há quem considera um fenómeno novo, um protesto pacífico, numa zona onde há armas por todos os lados. Esperemos que todos percebam o que é uma manifestação pacífica.


publicado por edguedes às 20:44
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