as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quarta-feira, 23 de Abril de 2008
A RÚSSIA, A MORAL E O ESPÍRITO

            A Rússia atravessa uma crise moral. Não é certamente a única crise que este vasto país enfrenta, e a interpretação desta afirmação varia muito consoante as pessoas que a pronunciam ou que a escrevem.

            A presidente (e não reitora) da Universidade Estatal de S. Petersburgo, Ludmila Verbitskaia, escreveu ao ainda presidente e quase primeiro-ministro Vladimir Putin, manifestando a sua preocupação para o “baixo nível moral da sociedade” e para a “comercialização sem controle e degradante dos meios de comunicação”. O conteúdo da missiva é referido pelo jornal “Vedmosti” que teve acesso à mesma.

            No entanto, o que preocupa a professora não é nem a pornografia, nem a pedofilia. Tão pouco parece ser a crise de valores universais como a justiça, a liberdade, o direito à vida, a liberdade de expressão, o direito à educação o a democracia. Ludmila Verbitskaia está preocupada com o “prejuízo diário que os meios de comunicação causam ao espírito (ou à espiritualidade)”, lamentando que “dos ecrãs tenha desaparecido a imagem do trabalhador moderno, que forma uma posição positiva, moral e autenticamente patriótica”. Queixa-se ainda que da “insuficiente propaganda do cumprimento dos deveres militares e do trabalho nas forças da ordem e nos serviços especiais (secretos)”.

            Como solução propõe a criação de uma comissão “junto do primeiro-ministro” (tendo em vista Putin) que se ocupe da “política de Estado no âmbito do espírito”, de elaborar critérios de comportamento moral e de avaliar os conteúdos dos meios de comunicação. Deveria também preparar leis que estabeleçam limites para os descontrolados meios de comunicação.

            Entre os nomes que a presidente da Universidade propõe para a dita Comissão, está o seu próprio, o do Patriarca Alexis II, o do general Valentin Varennikov (menos conhecido, mas um nacionalista ferrenho) e vários outros, que ao que parece nem sequer foram consultados para o efeito.

            É provável que a carta da professora não dê origem a nada. No entanto, é a expressão de uma mentalidade que desperta novamente, em paralelo com o desenvolvimento de um regime mais centralizado, onde o Estado e a burocracia desempenham um papel crescente. Frequentemente, as propostas de lei que circulam na Duma de Estado (parlamento) são do mesmo teor e fazem apelo aos mesmos “valores”. Na Rússia, nalguns sectores da sociedade, confunde-se valores morais, com nacionalismo, e espiritual com adesão ao modelo patriótico oficial. Daqui se vê que a crise é mesmo grande.

            Esperemos que com o tempo as “exigências espirituais” evoluam numa boa direcção.


publicado por edguedes às 13:16
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