as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
INGUCHÉTIA

 

 

A república da Inguchétia é uma das mais pequenas regiões da Federação da Rússia. É uma das repúblicas do lado norte do Cáucaso e confina com a Chechénia e com a Ossétia do Norte. No Cáucaso não faltam regiões problemáticas, mesmo deixando de lado o que se passa do lado sul na Abkházia e na Ossétia do Sul. No entanto, parece que o território onde a instabilidade é mais notória nos últimos tempos é mesmo a Inguchétia. Quase diariamente há notícias de atentados. Quase diariamente, e sem notícias, desaparecem pessoas, em geral homens. O poder local e o presidente Murat Ziazikov, são alvo de um descontentamento generalizado. Moscovo faz de conta que não ouve as vozes da oposição inguche, e mantém a aposta no pouco popular Ziazikov (os governadores e presidentes das regiões russas são nomeados pelo presidente russo). Ludmila Alexeeva, presidente da Federação Internacional de Helsínquia para os direitos humanos, uma das figuras mais relevantes no âmbito da luta pelos direitos dos cidadãos, desde os tempos soviéticos, comentou o que viu e ouviu na semana passada na Inguchétia.  “Na Inguchétia há casos de assassínio de polícias e funcionários, e a resposta das autoridades para combater esses crimes é o sequestro de cidadãos civis”, explica em síntese  Ludmila Alexeeva. 

 

“Se há guerra civil, percebe-se que quem anda com armas à noite, de dia apresenta-se como um cidadão pacífico. Pode ser essa a justificação de quem faz essas coisas. Mas num estado de direito, se uma pessoa é suspeita de acções terroristas, vêm com os documentos correspondentes, prendem-no, fazem-se investigações, recolhem-se provas, depois vai a tribunal e só então é que se determina a pena. Na Inguchétia não é assim. Vão a casa, ou apanham-no pelo caminho, às vezes matam-no logo, às vezes levam-no para outro lado, sem explicar aos parentes para onde e porquê. Às vezes encontram os cadáveres, outras não se encontra de todo”. Ludmila Alexeeva cita dois relatórios, um da organização de defesa dos direitos humanos “Memorial”, outro da “Assembleia Popular” da Inguchétia, de certa forma um parlamento paralelo da oposição, “que dizem que não existe, mas o relatório existe”. Depois de ter falado com um grande número de pessoas, desde o presidente Ziazikov até às esposas e mães das vítimas, Ludmila Alexeeva diz que “o que se passou anteriormente na Chechénia e que agora se está a passar na Inguchétia, é o mesmo que se passou em todo o país no ano de 1937. É o terror do Poder central contra a população”. Para citar um caso conta que viram “um colaborador de uma organização para defesa dos direitos humanos, o qual esteve detido só quatro horas depois de o terem apanhado. Ele tinha uma fractura na perna, uma fractura num braço, um traumatismo craniano grave, os rins espancados, e muitos hematomas de pancadas fortes. Isto em 4 horas. Nenhum combate ao terrorismo pode explicar e justificar este tipo de acções por parte das autoridades”. “Falei com mulheres a quem mataram parentes... eu conto só das duas últimas. Duas mulheres novas. Uma era tão jovem que eu pensei que ela ainda andava na escola... Eram casadas com dois primos (entre si). Os maridos iam num carro para qualquer lado e viram a estrada bloqueada por blindados. Eles logicamente deram meia volta. Abriram fogo sobre o carro deles, rebentaram os pneus e mataram um dos que ia no carro. O segundo ficou ferido. Ele saltou para fora do carro, com as mãos no ar e gritou “vêm que estou desarmado, não disparem”. E disparam e matarem-no. Houve testemunhas e contaram-lhes como tinham morrido os maridos delas. Uma das mulheres tem três filhos e a outra, que parecia ainda de escola, casada há dois anos, tem uma criança de um ano, e está à espera de outro. Vai nascer já órfão. Porquê?”

Ludmila Alexeeva diz que fez as mesmas perguntas a toda a gente, desde o presidente até aos populares. “Quem comete atentados contra polícias e funcionários? E quem, para além de todas as leis e de todas a normas, trata assim os cidadãos da Inguchétia”. “Devo dizer que as respostas foram idênticas”, afirma a defensora dos direitos humanos. “Nesta república existem grupos terroristas clandestinos que matam polícias e funcionários”, é a resposta ouvida para a primeira pergunta, enquanto que para a segunda: “não são as autoridades locais, são os Federais”. Os federais seriam o FSB (Serviço Federal de Segurança) e a “brigada móvel”, como são designadas as tropas federais que se encontram naquela república sob a dependência do FSB.

            Uma das respostas que obtiveram do presidente Ziazikov, quando lhe perguntaram o que se passava com os “desaparecidos” foi que não sabia “porque essas pessoas não são detidas por nós, levam-nos da Inguchétia para Vladikavkaz (Ossétia do Norte), é outra república e por isso eu não lhe posso dizer o que fazem com eles”. A este propósito deve-se lembrar que entre ingúches e ossetas houve uma verdadeira guerra em 1992, por causa da minoria ingúche que vive na Ossétia do Norte, e de disputas territoriais. Os ódios não estão esquecidos e a tragédia de Beslan, há quatro anos, levou a situação de novo quase ao rubro. No Cáucaso em geral, e a Inguchétia não é excepção, existe a tradição da “vingança de sangue”. Se mataram um teu parente tens de matar o autor do crime. A cadeia das vinganças pode ir muito longe e os defensores dos direitos humanos consideram que uma tarefa prioritária e conseguir o diálogo e pôr termo às “vinganças”. “Mas é necessário que se acabe com os sequestros e haja transparência”

 

EVLOEV

            O caso mais clamoroso foi a morte de Magomed Evloev, proprietário do portal Ingushetya.ru, actualmente o principal órgão de comunicação da oposição. Foi levado pela “polícia”, à chegada ao aeroporto local, saído de um avião em que ia também o presidente Ziazikov. Passada meia hora, Evloev foi deixado à porta do hospital com um tiro na cabeça.

A versão oficial é que foi morto acidentalmente por “descuido na manipulação de armas”. A família e colegas de Evloev, dizem que o crime foi planeado e que por detrás está o presidente Ziazikov e o ministro do Interior (da Inguchétia), Mussa Medov. De acordo com o pai da vítima, Iakhia Evloev, “eles pretendiam liquidar o meu filho, por causa da sua actividade política e por a sua posição não estar de acordo com a posição do presidente. Ele denunciava a corrupção, execuções sem julgamento, exigia que fosse cumprida a Constituição. Por isso odiavam-no. Recebeu várias vezes ameaças. Como pai, eu tentei várias vezes travá-lo nestas iniciativas. Eu conheço as nossas autoridades e eles são capazes de tudo, podem ir até à tua eliminação”.

“À uma e dez saiu do avião, e às 14.05 deixaram-no à porta do hospital mortalmente ferido. Há testemunhas que dizem (não sei se depois o vão dizer em tribunal, mas a nós disseram-nos) que para o automóvel do ministro telefonou a brigada que tinham levado o meu filho, dizendo “demos cabo dele”. O ministro respondeu “deixem-no no hospital e venham imediatamente ter comigo”. E disseram que viram esses assassinos, sujos ainda de sangue chegar ao gabinete do ministro e aí começaram a estudar as versões que deveriam contar. Nenhum deles foi detido, quando que em circunstâncias normais deveriam ter sido logo detidos, deveriam ter sido confiscados os telemóveis, estudados os telefonemas”.

            Iakhia Evloev diz que não proclamou a “vingança de sangue”, mas procura por meios legais obter a punição dos culpados. O portal Ingushetya.ru publicou a lista das pessoas que, segundo uma investigação paralela, conduzida por parentes e amigos de Evloev, estariam envolvidas na morte de Mogamed. A investigação oficial parece que não está interessada em explorar essa versão.



publicado por edguedes às 14:48
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

VICTOR HUGO PONTES NO "IN...

RÚSSIA E POLÓNIA DEPOIS D...

RE-START

"SHAKHIDKA"

AINDA ATENTADOS

METROPOLITANO DE MOSCOVO ...

METROPOLITANO DE MOSCOVO ...

METROPOLITANO DE MOSCOVO ...

RECOMEÇAR

ASSASSÍNIO DE SACERDOTE C...

arquivos

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

tags

todas as tags

links
blogs SAPO
subscrever feeds