as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008
YUKOS - AINDA EM FOCO

 Dentro de dias (15 de Outubro), deverá ser apreciado por uma instância superior do tribunal de Tchita (Sibéria oriental) o caso da recusa em primeira instância do requerimento de concessão de liberdade condicional antecipada a Mikhail Khodorkovski. Entretanto ele foi colocado de castigo na cela de isolamento, durante 12 dias, e os guardas prisionais foram instruídos no sentido de proceder a uma rigorosa vistoria dos advogados do ex-milionário, sempre que estes o visitem. A causa destas medidas, foi a publicação de uma entrevista com Khodorkovski, por parte do escritor e jornalista Grigori Tchkhartichvili (de pseudónimo, Boris Akunin) na revista “Esquire” (http://www.khodorkovsky.ru/docs/8737__Esquire_Interview_MBK-Rus.pdf). A entrevista é um resultado da correspondência entre os dois, para qual não é de excluir que os advogados tenham feito de correio. Embora os advogados considerem que as autoridades prisionais não têm razão em castigar Khodorkovski, percebe-se que a entrevista tenha provocado reacções. Boris Akunin conseguiu que Khodorkovski falasse do que sente, da sua vida familiar, dos seus ideais, do processo que decorreu contra ele e do que pensa do futuro da Rússia. A impressão que eu tive, é que a abertura provoca empatia, o que por sua vez leva a tomar como provavelmente verdadeira a versão dos factos apresentada por Khodorkovski. Mesmo assim, as autoridades não têm razão para se assustar. Não é a revista “Esquire” que forma a opinião pública.

 

            A propósito do caso Yukos, e antes de passar a alguns extractos da dita entrevista, queria ainda dizer que está em curso na internet uma campanha a favor da concessão de liberdade condicional antecipada a Svetlana Bakhmina. Esta jurista da Yukos foi condenada a 7 anos de prisão, no âmbito dos processos abertos contra a companhia de Khodorkovski, e já cumpriu mais de metade da pena, o que lhe daria a possibilidade de beneficiar de liberdade antecipada. Svetlana Bakhmina tem dois filhos, um de sete anos e um de nove. Em março beneficiou de uma saída precária durante alguns dias e ficou grávida. A liberdade condicional antecipada foi recusada, já por duas vezes, por um tribunal de Moscovo. A carta, dirigida ao presidente Dmitri Medvedev, aberta na Internet (http://bakhmina.ru/), até este momento, foi assinada por 21 mil pessoas, mas o número de assinaturas continua a crescer a cada minuto. Svetlana Bakhmina faz hoje 39 anos.

 

            Voltando à entrevista de Khodorkovski. Respondendo à pergunta se não lamenta não se ter ido embora da Rússia enquanto era tempo, o ex-presidente da Yukos responde “quanto a isso há uma esquizofrenia. Metade do meu eu já lamentava naquela altura, ter regressado (duma viagem), e continua a lamentar a cada dia que passa, longe da família e de casa. A outra metade é a que responde pelo sentido do dever, e pensa em categorias de honestidade e traição, e não me dá a possibilidade de viver em paz. Pode ser que os meus critérios sejam estúpidos. Pode ser que devesse ser mais flexível. Provavelmente. Mas eu tenho 45 anos, e eles estão formados. Ir além de mim mesmo talvez pudesse mas, tendo-o feito, não saberia como viver”.

... “Eu tenho uma grande esperança que os meus filhos, que desde a idade do infantário sabem que o “pai está na prisão”, vão crescer compreendendo porque é que não era possível de outra forma. A minha mulher promete-me que lhes consegue explicar isso”.

 

A respeito do processo:

“Eu não tinha dúvidas de que a Procuradoria me pudesse manter na prisão durante muito tempo, mas quase até ao fim não acreditava que o tribunal pudesse pronunciar um veredicto de condenação sem provas e, principalmente, contra a evidência dos factos, ainda por cima num processo aberto. Eu pensava que o tribunal é sempre um tribunal, pode jogar com os acusadores, mas não pode abertamente violar a lei... Resulta que pode, e de que maneira”...

 

A propósito dos acusadores:

“O procurador Chokhin e a juíza Kolesnikova? são funcionários menores, que nunca teriam sido metidos no caso se não houvesse contra eles material comprometedor.  Kolesnikova estava dependente de uma queixa contra ela que continuava na Procuradoria sem resposta, isto ao longo de todo o processo. Queixas análogas deram penas de 12 anos a colegas seus (questões de apartamentos)... No que respeita a Chokhin, os seus problemas são compreensíveis. Que ele tenha decidido não tomar posição contra as chefias e preferiu mentir com criatividade no tribunal (o que eu denunciei), infelizmente, é uma consequência inevitável do sistema de garantias viciadas em que ele vive”...

“Ninguém, sublinho, ninguém testemunhou contra mim e Platon (Platon Lebedev, presidente do grupo Menatep). Alguns até se decidiram a testemunhar em nossa defesa. E estas eram as testemunhas seleccionadas entre as pessoas que deviam ser a parte ofendida por nós... Dezenas de pessoas que, apesar da enorme pressão, se recusaram a ir contra a própria consciência... Entre estes havia também funcionários da Procuradoria, que se recusaram a mentir por ordem das chefias.”

 

Sobre o que poderia estar por detrás do processo:

“... Até 2003 a administração do presidente e o governo sabiam tudo de nós, quem éramos, quem ajudávamos, quais a questões que eram objectivo dos nossos ‘lobbies’. Tudo mudou em 2003. Podemos pormo-nos a adivinhar porquê. A proximidade das eleições, ou a política de informação do sector vindo das “forças”... Duma forma ou de outra a situação alterou-se sem análises prévias... Nós tínhamos conseguido empurrar uma lei (no Parlamento) que a respeito do transporte nos oleodutos, que era “a igualdade de acesso ao oleoduto”, ou seja as quotas que antes eram “criativamente” confirmadas pelos funcionários em cada trimestre, passaram a estar fixadas pela lei. Nós conseguimos fixar na lei as escalas de taxas alfandegárias, que eram uma coisa  que “alimentava uma massa” (de funcionários)... e ainda outras emendas análogas contra a corrupção... Mas no lugar de uns corruptos já se levantavam outros. Eu percebi que sem apoio político não se conseguia nada. E foi decidido apresentar a questão da corrupção ao presidente... Eu falei sobre o gigantesco mercado da corrupção no país que, na altura era 30 mil milhões de dólares, 10% do PIB (no início de 2008, o vice-procurador geral afirmou que era 240 mil milhões de dólares, 20% do actual PIB). Depois de isso, em Março, começaram os ataques...”

 

“Cinco anos de cadeia significa também contínuas mudanças e muitas limitações. Só se podem levar atrás poucas coisas. É pena ter de deixar os livros, perder os apontamentos. Mas eles permanecem, na cabeça. O resto é insignificante. Nesse sentido, a prisão torna o homem mais livre.”

 

A propósito dos valores e da Fé:

“Porque é que a democracia é melhor do que a ditadura? Porque é que a liberdade é melhor do que a falta de liberdade? Porque é que mentir e cometer vilezas é um mal? Porque é que se deve amar o próximo? Porque é que se deve defender a Pátria, salvar os outros, a custo da própria vida? Depois não há mais nada! Mas pode ser que haja?...

... “A sociedade que estiver mais próxima daquilo que o homem realmente é será mais feliz e mais bem sucedida... Eu acredito na aspiração interior do homem para a liberdade, para o amor, para a verdade e que só por esse caminho ele se pode sentir feliz. Provas? Não tenho... Nós vivemos não só para poluir o ar e a água. Nós existimos para algo de maior. Para o quê, eu não sei. Cada um de nós, individualmente, para a felicidade. E todos em conjunto? Penso que há um Grande Objectivo para a humanidade que não me é dado compreender...”



publicado por edguedes às 11:17
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