as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007
imagens em tempo de eleições

"A nossa escolha - Vladimir Putin"

 

 

"Liberdade para Kasparov"

 

 

 

 

Kasporv em liberdade

 

discordante

 

 

protesto contra a prisão de Kasparov

 



publicado por edguedes às 22:49
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ELEIÇÕES RUSSAS

Ainda há umas semanas atrás eu estava convencido que estas eleições parlamentares russas iam ser um seca. Parece tudo já decidido. Os recursos estão quase todos do mesmo lado. O partido do poder “Rússia Unida”, com Vladimir Putin a encabeçar a lista, os órgãos da comunicação a mostrarem a sua submissão às autoridades e o mundo dos negócios a competir em exibições de fidelidade ao Kremlin. Com uma barreira para entrar no parlamento de 7%, parece que a única fracção da oposição, e não muito grande, vai ser a do Partido Comunista. Não fico admirado quando, à pergunta “em quem é que vais votar”, a resposta mais frequente que tenho obtido é que “não tenho intenções de lá ir”. Pode ser que a abstenção seja o segundo partido mais votado.

            Entretanto começaram a multiplicar-se propostas para que Putin se torne num “líder nacional”, para além das estruturas de Poder. À força de as ouvir, acabei por lhes dar algum crédito e comecei a ficar um pouco preocupado.

 

Kasparov

            Nos últimos dias tenho a impressão de que o ambiente está a aquecer (refiro-me ao político, porque lá fora neva). Por um lado os ânimos agitam-se por causa de Garri Kasparov, que de campeão de xadrez resolveu arvorar-se em opositor número um do Kremlin. O facto é que o regime lhe dá crédito e procura sufocar as suas iniciativas com a força, o que funciona como uma notável caixa de ressonância, para uma voz de protesto que, sem essa ajuda, dificilmente se faria notar. Hoje fui meter o nariz na manifestação de apoio a Kasparov. É-me difícil dizer quantos eram os manifestantes (talvez 20) porque certamente eram mais os jornalistas, e incomparavelmente mais os polícias. Aproveitei para meter conversa com Lev Ponomariov, dirigente do movimento “Pelos Direitos Humanos”, que sabia que tinha sido detido no sábado juntamente com Kasparov. Explicou-me que não havia nenhuma razão objectiva para que ele tivesse sido posto em liberdade com uma multa de mil rublos (30 euros) enquanto que Kasparov apanhou cinco dias de cadeia. “Caminhávamos juntos, nenhum de nós tinha cartazes, e levaram-nos na mesma altura”, disse Ponomariov. Donde se deduz que a detenção de Kasparov não foi devida a infracções objectivas. A meio da tarde Kasparov foi libertado e conduzido pela polícia directamente a casa, para evitar “manifestações” à porta da esquadra. Quando cheguei lá, já Kasparov se encontrava no meio de um pequeno círculo de jornalistas, respondendo, ora em russo ora em inglês, mais ou menos às mesmas perguntas. “Deixaram-me sair porque passaram os cinco dias a que me tinham condenado. Da prisão fomos à esquadra do bairro Bassmany e depois vieram-me trazer directamente a casa,” ia respondendo o campeão de xadrez. Dizia que não foi maltratado na prisão mas considera intolerável que não o tenham deixado falar com o(a) advogado(a) durante todo o tempo da detenção.

Eis algumas das declarações de Kasparov:

 

-“É a primeira vez na Rússia quando, descaradamente, se viola um dos direitos judiciais fundamentais. Depois da detenção, todos têm direito a ver um advogado. Foi-me negado esse direito e vi como as coisas se passaram na esquadra da polícia”.

-“Fui inicialmente acusado com uma acusação menor, como da última vez, em abril, mas de repente alguns oficiais entraram nesse gabinete onde o polícia estava a escrever o relatório e disseram vocês têm de acrescentar outro artigo que representava a recusa a acatar a ordem da polícia”.

-“Não tenho queixas quanto à prisão. A não ser o facto de que me isolaram completamente do mundo, nem telefonemas, nem encontros com o advogado, nem com ninguém. É uma operação que parte muito de cima e não das pessoas que efectuaram a minha detenção. Nesta epopeia, a prisão de cinco dias foi o factor menos traumatizante”.

- “Não é uma mensagem só para mim, é para todos nós, temos que entender que temos que ter medo, que combater o regime pode custar muito caro. Mas eu sinto que tenho a obrigação de continuar, porque não é só questão de Garri Kasparov, dezenas de pessoas foram detidas comigo, em Moscovo, e ainda dezenas em S. Petersburgo, e centenas detidas regularmente na porvíncia. Eu penso que continuo a lutar não só pela nossa causa, mas também por estas pessoas que não podem atrair a Imprensa mundial”.

 

Illarionov

 

Entretanto participei numa conferencia de Andrei Illarionov, ex-conselheiro de Putin para assuntos económicos, actualmente um dos críticos do regime e que se exprime, em geral, de forma muito sonante. A conferência de hoje foi, pelo menos, alarmante. “Há maio ano atrás, noutro encontro aqui (Nezavissimy Press Centr) propusemos um título de ‘pressentimento de catástrofe’, falámos há um mês atrás do ‘prólogo da catástrofe’, e agora temos que falar do seu começo”. Illarionov referia-se ao clima e acontecimentos vários que rodeiam o período pré-eleitoral. “Um dos acontecimentos cruciais que têm relação com esta catástrofe é o que se chama eleições de 2 de dezembro, o que vai acontecer dentro de alguns dias. Do ponto de vista histórico é parecida com duas bem conhecidas campanhas, a que se desenvolveu na URSS em 1937, e a escolha do Soviete Supremo da URSS de Dezembro de 1937, praticamente há 70 anos. A outra, foi um bocadinho antes, aliás não era só uma campanha mas foram algumas campanhas, é a eleição do Reichstag da Alemanha em 1932 e 1933. Ambas estas campanhas têm alguns traços em comum – uma campanha maciça de medo, terror contra os oponentes políticos, recurso à violência em massa, espancamentos, em muitos casos, como sabemos, o recurso ao terror chegou a assassínios e prisões em massa. Numa escala destas as coisas não se estão a passar entre nós, mas no estilo estas campanhas são muito parecidas”.

            “Esta operação tem como objectivo legitimar o novo regime político, que se está a formar agora e que nos seus traços principais se vai formar depois de 2 de dezembro e de 2 de março. O regime não vai parar na sua evolução, vai ser verdadeiramente um outro regime e podemos acreditar no actual presidente que diz que o resultado destes acontecimentos vai ser “uma renovação radical do poder””. “Consequência é a ‘absolutização’ do poder, ou seja a concentração do poder num círculo muito restrito de pessoas, pode ser até numa pessoa”.

            “Por outras palavras o regime que temos é autoritário e repressivo. Mas de que tipo? De um partido? Em comparação com as ditaduras de partido, incluindo a soviética ou nazi, temos que dizer que não. O partido Rússia Unida não é comparável às estruturas partidárias da URSS ou da Alemanha. Estado Corporativo? Análogos são a Itália, Espanha e Portugal. O regime actual da Rússia é bastante diferente. Encontrar análogos na história é bastante difícil. É um regime que se baseia não só na violência mas ainda que não está condicionado pela lei”.

 

Devo admitir que a conferência de Illarionov me deixou algumas preocupações.

Resta a consolação de que a Rússia consegue, normalmente, ser um bocado diferente das sinas que lhe adivinham, por isso ainda nos fica o benefício da dúvida.


publicado por edguedes às 22:21
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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007
MÃES DE BESLAN ENFRENTAM PROCESSO

 

 

 

Foi aberto um processo administrativo contra Ella Kessaeva dirigente do movimento “Voz de Beslan”, devido a uma acção de protesto “provocatória”. Parentes das vítimas da tragédia que ali ocorreu há três anos na Escola Nº1, colocaram em frente ao que resta do edifício da escola, uma “sinal de trânsito” que apontava para aquela com o dístico “Curso de Putin”.

Ella Kessaeva é acusada de ter “usado indevidamente e de iniciativa própria” a berma da estrada, ou seja de ter colocado um sinal de trânsito sem autorização.

            No clima de campanha eleitoral que se vive na Rússia, o “plano de Putin” e o “curso de Putin” fazem parte dos argumentos centrais do partido Rússia Unida, cuja lista de candidatos ao parlamento é encabeçada pelo presidente. As representantes da “Voz de Beslan” e das “Mães de Beslan”, protestavam contra o apoio dado por um sector de jovens da Ossétia do Norte ao “Curso de Putin”.  “Durante o seu mandato deu-se não só Beslan, mas também muito outros atentados terroristas. Ninguém foi castigado, não há investigações objectivas, vê-se só a cobertura dos criminosos e tribunais corruptos – tudo isso se chama curso de Putin”, declarou Ella Kessaeva, numa declaração publicada no portal da organização.

            Ella Kessaeva tem já uma longa experiência de andar pelos tribunais. Em Agosto, durante uma curta permanência na Ossétia do Norte, tive a ocasião de a conhecer e de constatar o seu espírito batalhador. A “Voz de Beslan” é um movimento mais aguerrido do que as Mães de Beslan”, e talvez mais político. Funciona numa sala de uma casa particular, porque o escritório que tiveram foi-lhes retirado. Ella considera que a culpa do desfecho trágico do sequestro da escola é em grande parte das autoridades russas ao mais alto nível, e trabalha em continuação para o demonstrar. Movem processos contra funcionários e polícias e, em geral, perdem. No último dia em que falou connosco tinha uma sessão no tribunal contra um oficial da polícia da Inguchétia que, na opinião das “mães”, teve culpas no acesso dos terroristas a Beslan. Também dessa vez perderam a causa. Mas Ella diz que não pára. “Com fundamento, nós podemos afirmar que é o presidente Putin que não deixa investigar. Nós esperamos que ele não tenha o terceiro mandato, dado que pela Constituição ele não pode, e nós estamos a preparar documentos, para apresentar na Procuradoria, e veremos o que é que dali vai sair. Nós queremos demonstrar que perante a lei todos são iguais. Este foi um crime concreto do presidente”, afirmou naquela altura Ella Kessaeva.



publicado por edguedes às 16:33
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Terça-feira, 20 de Novembro de 2007
PROGRAMA PRESIDENCIAL

GEÓRGIA, PROGRAMA PRESIDENCIAL

 

            Mikhail Saakachvili entrou já abertamente em campanha eleitoral e, ontem, apontou como uma das prioridades do seu segundo mandato (se ganhar) a passagem da selecção nacional da Geórgia à fase final do campeonato do mundo de futebol. “Durante o meu segundo mandato presidencial, uma das principais tarefas vai ser a entrada da selecção da Geórgia no campeonato do mundo de futebol”, disse o chefe de estado georgiano. A divulgação do programa eleitoral de Saakachvili foi feita num encontro com dirigentes das Federações desportivas do país, e representa certamente uma viragem (tardia) na estratégia do actual president, que já está no poder à quatro anos. No entanto, não deixa de ser um argumento convincente para grande parte da população. Se ele tivesse tomado essa decisão no primeiro mandato a selecção da Geórgia não estaria certamente agora no penúltimo lugar do grupo da fase qualificativa do Euro 2008. Mas Saakachvili não é só um homem de palavras e ontem a selecção de esperanças da Geórgia bateu a sua homóloga da Rússia por 2-0, num jogo de qualificação para o campeonato da Europa de sub-21.

            Uma outra medida, para ser actuada imediatamente pelas autoridades georgianas, foi uma amnistia presidencial que vai contemplar cerca de 1500 detidos. Esta decisão é para comemorar a “revolução das rosas” (dia 23 de Novembro). O facto de ser o início da campanha eleitoral é pura coincidência.

 



publicado por edguedes às 21:32
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007
HISTÓRIA DE PORTUGAL EM PALCO DE MOSCOVO

 

 

Não são muitas as presenças de representantes da cultura nacional em terras russas. Este fim de semana Moscovo teve a ocasião de ver a Companhia Nacional de Bailado com a representação de “Pedro e Inês”, no contexto do festival internacional de dança contemporânea “Dance Inversion”. Apresentar bailado “made in Portugal” na capital da dança clássica é um risco, e o facto de ter havido coragem de o correr é já extremamente positivo. Entre as várias peripécias, houve enormes problemas com o transporte do equipamento que conseguiram desalfandegar da antevéspera do primeiro espectáculo. Os dois espectáculos, no teatro Stanislavski, contaram com a casa praticamente cheia (1400 lugares, segundo uma entrevista do director do teatro), com um público predominantemente jovem. Ficou-me a dúvida se as pessoas que estavam ao meu redor podiam ligar as cenas à história que inspirou Olga Roriz. No final,  os aplausos foram longos, mas não muito intensos, o que leva a crer que deixou nos espectadores impressões diversas. As críticas nos jornais evidenciavam surpresa pela “piscina construída no palco”, onde “os intérpretes podem só mostrar beijos e abraços naturais, e o papel de coreógrafo é deixado à água” (Anna Galaida, do diário “Vedemosti). “Salvam o espectáculo as cenas mais arriscadas”, escrevia Tatiana Kuznetsova do jornal Kommersant, referindo-se à dança na “piscina” de um palmo de água, mesmo se, “com água pelo joelhos, não dá para grandes rasgos de dança, voltas, corridinhas e salpicos”, mas exactamente nessas cenas a jornalista viu “uma autêntica paixão espontânea, que não é fácil de mostrar no palco do bailado”. Apesar de vários senões, que me parece preferível saltar, a jornalista afirma que “resgatam o ballet uma simplicidade desenfreada e a autenticidade dos sentimentos que talvez seja possível só aos habitantes da península Ibérica, confim europeu da dança contemporânea...”



publicado por edguedes às 22:49
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BEM PREGA FREI TOMÁS

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia seguiu o exemplo da instituição homóloga russa e deixou de lado o verniz diplomático. Num comunicado que apareceu ontem, o MNE georgiano classifica de “pasquim” uma comunicação do MNE russo, e assegura que o que os faz falar é a inveja, “pelos sucessos conseguidos pela Geórgia precisamente no caminho para a construção de um estado democrático e no reconhecimento internacional destes sucessos, do que a Rússia, infelizmente, não se pode gabar”. A diplomacia georgiana sublinha que a Rússia pretende mostrar que a Geórgia não está à altura dos padrões democráticos, mas por seu lado renuncia à presença da missão dos observadores da OSCE nas próximas eleições parlamentares. De acordo com Tbilissi, o que pretende o MNE russo é distrair a atenção da comunidade internacional e da população da Rússia para o facto de que “na Rússia há muito tempo que não existe nem sombra de um processo político democrático” e acrescenta que o que ali (na Rússia) se passa é uma “comédia em várias séries” e um dos episódios é o das “eleições parlamentares” e do “herói nacional”.

            A provocar os georgianos tinha sido uma comunicação dos responsáveis pela diplomacia russa em que se afirmava que se “confirma a impressão de que as eleições antecipadas (na Geórgia) foram pensadas como uma farsa aberta destinada a garantir a permanência do poder nas mãos da actual administração”, acrescentando que “há limitações à liberdade de expressão e reunião e continuam as perseguições à oposição”. O actual governo da Geórgia “continua a insuflar a mania dos espiões e a engrandecer a imagem do inimigo externo”, e coloca como “eixo da campanha eleitoral uma aberta russofobia”. Referindo-se directamente a Saakachvili, diziam que ele “mergulhou definitivamente num certo mundo virtual” onde “inventa ameaças” que se “inspiram em Jan Fleming”.

            Parece que os georgianos se mostraram sensíveis à referência literária do autor de James Bond, porque voltam a citar o popular escritor, afirmando que “os funcionários russos vêem o mundo através de passagens fantasmagóricas das criações de Jan Fleming”.

            Esta troca de missivas diplomáticas, em que as “verdades” são ditas num estilo que é raro fora do espaço do que era em tempos a União Soviética, fez-me lembrar a pregação do Frei Tomás (faz como ele diz e não faças como ele faz). Às vezes, é mais fácil dizer uma coisas acertadas quando se comentam os acontecimentos do país do vizinho.



publicado por edguedes às 22:14
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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007
OUTONO EM MOSCOVO

 

CHEGOU A NEVE !!! 

 

 

 



publicado por edguedes às 21:34
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LÍDER NACIONAL

A assembleia legislativa da região de Sverdlovsk, aprovou ontem uma resolução, na qual pedem a Vladimir Putin que aceite “manter o papel de líder nacional e que continue a ter uma participação activa na vida política da Rússia”. A iniciativa dos deputados regionais de Sverdlovsk è semelhante a várias outras propostas que se têm feito ouvir nos últimos tempos na Rússia. O partido “Rússia Unida”, do qual Putin aceitou ser o cabeça de lista, afirma que não tem nada a ver com essas iniciativas. No entanto, foi Abdul Khakim Sultigov, coordenador do “Rússia Unida” para a política nacional, que fez a proposta mais “ousada”, considerando que Putin deveria assumir um papel de líder nacional, acima das actuais instituições políticas. Deveria haver “Assembleia Civil da Nação Russa” que representaria o povo e que deveria estabelecer um “pacto de unidade civil”. Essa mesma assembleia deveria instituir o cargo de “líder nacional”.  Alguns observadores traduziram o cargo projectado por Sultigov como o de um “pseudo-czar vitalício”. Também o movimento “Por Putin” recentemente criado defende uma lógica muito semelhante à formulada por Sultigov.

            Durante a visita de ontem a Krasnoyarsk, na Sibéria central, Putin explicou os motivos que o levavam a candidatar-se nas listas do Rússia Unida e referiu-se ao seu futuro, depois de terminado o actual mandato presidencial. O presidente admitiu que o Rússia Unida não era um partido ideal, e que tem algumas insuficiências como “a falta de uma ideologia sólida e de princípios, pelos quais a maioria dos seus membros estejam dispostos a bater-se”. Mas adiantou que “não há outro melhor”, e que o Rússia Unida tem a vantagem de “estar próximo do poder” e atribuiu parte dos sucessos da sua governação ao facto de que se podia “apoiar, na prática, na actividade do Rússia Unida”. “Se as pessoas votarem no Rússia Unida, cuja lista eu lidero, isso significa que confiam em mim, e eu adquiro um direito moral de exigir de todos os que trabalharem na Duma e no governo, o cumprimento das decisões que agora apontamos”, afirmou o líder do Kremlin. Putin não quis, no entanto, precisar qual seria formalmente o seu cargo adiantando que preferia “evitar uma resposta directa”, mas “existem diversas alternativas”.


publicado por edguedes às 15:32
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007
CÁUCASO DISTANTE

                                

De vez em quando chegam notícias alarmantes da Inguchétia. A mais recente foi a morte de um rapazinho de 6 anos durante uma “operação especial” levada a cabo pelas forças federais. Por forças federais entende-se geralmente, unidades especiais do exército russo, coordenadas pelo Serviço Federal de Segurança (FSB). De acordo com a narração das pessoas da aldeia de Tchemulga, na região montanhosa da Inguchétia, ao alvorecer, as forças federais cercaram a casa de Ramzan Amriev, arrombaram a porta, ordenaram a todos que se deitassem por terra, e começaram a disparar na por cima deles em direcção aos outros quartos da casa. No final, o pequeno Rakhim de seis anos jazia com um tiro na cabeça. Depois, fizeram sair todos para a rua, Ramzan, a mulher Raisa, as filhas Luisa e Lapiska de 17 e 11 anos, respectivamente e ainda o filho Orchtkho de 15 anos. A eles juntaram-se os vizinhos, num total de 22 pessoas, nas mesmas condições, alguns descalços, ou em camisa de noite, como os colheu a intervenção dos militares, enquanto viam um carro blindado investir contra a casa de Amriev.

 

Suspeito

 Conforme declarou ao jornal “Gazeta” o chefe da administração da aldeia, Aslan Amriev, os militares pressionaram-no para que declarasse que da casa de Ramzan tinham aberto fogo sobre os “federais”. A versão do procurador da Inguchétia, Iuri Turiguin, é que “as tropas especiais cercaram a casa de Ramzan Amriev e que, segundo eles, quando dispararam da casa sobre eles, abriram fogo em resposta, depoois, quando inspeccionaram a casa encontraram o corpo da criança com um ferimento de bala da cabeça”. O procurador teria acrescentado que o chefe de família, Ramzan Amriev, era suspeito de crimes graves, e que teria desaparecido depois da “operação especial”. De acordo com a “Gazeta”, estas afirmações do procurador provocaram várias reacções entre a população e os defensores dos direitos humanos. Muita gente esteve naquele dia com Ramzan Amriev, em que todos os dos arredores vinham manifestar-lhe as condolências pela morte do filho.

            Nos últimos meses ouve-se falar com regularidade das “operações especiais” na Inguchétia. Ora se fala de espancamentos em massa na povoação de Ali-Iurt, durante uma “operação de limpeza”. Ora se descreve uma “operação especial”, na cidade de Karabulak, em que foi apanhado e executado um “bandido” que, ao que parece se encontrava desarmado. Ora aparecem notícias de atentados que em geral visam elementos da polícia. E ainda os chocantes homicídios de civis de etnia russa. A impressão geral é que a espiral de violência continua a crescer e que, actualmente, a situação da Inguchétia é bastante mais séria do que na vizinha Chechénia.

 

Em Nazran

            No verão, tive ocasião de dar um salto à Inguchétia. Foi mesmo um salto, porque a visita durou algumas horas. Estava com um colega italiano na Ossétia do Norte e, apesar de desaconselhados por todas as pessoas de bom senso e por entidades oficiais, decidimo-nos mesmo a ir lá. “Para os marginais, vocês são dois sacos de dólares que andam a passear pela rua”, diziam-nos lembrando os raptos para exigirem resgates que, volta e meia, acontecem lá por aqueles lados. Depois havia o problema das tensões entre os ossetinos e os inguchos, que oficialmente tentam demonstrar que estão resolvidas, mas que na prática tornam muito difícil arranjar um táxi na Ossétia que esteja disposto a ir à Inguchétia. No entanto, o motorista que nos levou a Beslan, mostrou-se mais sensível ao lucro do que atento aos riscos: “eu sou armeno, não tenho problemas em ir a Nazran”. Telefonámos a Azamat, um contacto que me tinha sido recomendado por um colega de Moscovo, e lá fomos. Os representantes na Ossétia do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, que zelavam pelo nosso programa, voltaram a fazer muitas recomendações, inclusivamente instruções para o percurso que o táxi deveria fazer. O motorista armeno, sempre mais interessado pelo ganho do que pelo resto, foi pelo caminho mais curto, que era exactamente pela não recomendada região de Prigorodnie, uma parte da Ossétia habitada sobretudo por inguchos, que reivindicam a posse daqule território, e cenário nos anos 90 de sérios combates entre ossetinos e inguchos. A última povoação é Tchermen, a qual apareceu recentemente nos jornais pelo assassínio de três inguchos em condições pouco claras. Na “fronteira” o aparato de armamento e controle dá a entender que estamos para entrar numa zona sujeita a outras condições de segurança. Mas as horas que passamos em Nazran foram tranquilas e a conversa com Azamat, um filólogo que foi mineiro e deputado e agora se dedica a cultivar couves da sua horta, foi extremamente interessante:

            - os guerrilheiros estão a passar-se da Chechénia para a Inguchétia? “Parece que sim, há sinais que fazem crer que isso seja parcialmente verdade”

            - abusos dos militares? “basta ir perguntar às populações que sofreram operações especiais”

            - o governo da Inguchétia tem pouco apoio? “é fraco...”

            - diferenças entre os chechenos e os inguchos? “há muita coisa em comum mas os chechenos são mais ousados, não têm medo de morrer, os inguchos são mais cautos, para não dizer cobardes...”

            - o islão tem uma forte influência? “teoricamente sim, mas é compreendido de maneira própria com uma mistura de tradições anteriores à islamização e de costumes soviéticos”.

            - relações com os povos vizinhos? “prefiro pensar que são vizinhos, mas na Ossétia provavelmente falaram-vos dos inguchos com outros adjectivos”.

 

No aeroporto

            De regresso, no aeroporto de Beslan (é o principal da Ossétia do Norte), onde passamos várias horas devido a um atraso “normal”, vemos alguns homens à paisana de pistola à cintura. Uns preparam-se para apanhar o avião para Moscovo, outros fazem-lhes companhia. Com o passar do tempo a vodka começa a pesar nas reacções do grupo. “São FSBsnikis”, ouvimos o comentário da agente da polícia que controlava os passaportes e que a espera tinha levado para a mesa do café ao lado da nossa, quando um dos rapazes vem buscar mais uma garrafa. Será que a paz no Cáucaso depende deles?

 

            Diz-se que na Inguchétia, no dia 24 de Novembro, vai haver uma manifestação popular para protestar contra os abusos das autoridades. Há quem considera um fenómeno novo, um protesto pacífico, numa zona onde há armas por todos os lados. Esperemos que todos percebam o que é uma manifestação pacífica.


publicado por edguedes às 20:44
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