as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007
O HOMEM DO ANO

Vladimir Putin foi escolhido como o homem do ano pela revista TIME. No portal do presidente russo, a entrevista concedida à TIME foi publicada na integra, (são 30 páginas A4 com caracteres de tamanho 12) em russo, antes da versão oficial chegar ao público. Por um lado pode-se pensar que tinham pressa de revelar a escolha da revista americana, por outro lado pode ter sido uma decisão ponderada no sentido de se precaverem contra “correcções da redacção”, ou até de introduzirem as suas próprias correcções. Na versão cedida gentilmente ao mundo da rede, subsistem gafes do jornalista que certamente serão corrigidas na versão dada aos leitores da revista que, devo admitir, ainda não tive ocasião de ler. O entrevistador comete a primeira gafe na introdução à primeira pergunta, dizendo que Putin nasceu em 1946, dando imediatamente a ocasião ao presidente russo de o corrigir. No entanto, a mais notável é que o jornalista pergunta a Putin como são as suas relações com Gorbatchov e com Ieltsin, ao que o líder do Kremlin faz notar “Ieltsin já morreu, como sabe”.

À parte estas gracinhas, a entrevista dedica muito tempo às relações entra a Rússia e os EUA, dando ocasião ao presidente russo de criticar, a maneira como Washington trata os parceiros internacionais com “essa maneira de ditar (o seu ponto de vista), nos assuntos internacionais, que suscita incompreensão e, frequentemente, resistência”... “ficamos com a impressão de que os EUA precisam de vassalos aos quais podem comandar”... Volta a tecer críticas à intervenção americana no Iraque, não poupa os jornalista (pelo menos alguns) “comprometidos, apesar de toda a liberdade da imprensa Ocidental, incluindo a americana”. Afirma que os jornalistas “verdadeiramente independentes... são poucos”. Queixa-se das pressões americanas na Ucrânia e na Geórgia, que não dão ocasião a estes países de escolherem o seu próprio caminho. Ao longo de toda a entrevista Putin apela várias vezes ao trabalho em conjunto, dando a entender que nalguns caso (Coreia do Norte, etc.) os resultados conseguidos foram fruto de uma boa colaboração. Em compensação faz grandes elogios a Bush, “um homem com uma grande experiência de vida e de Estado, e tudo o que ele faz é, sem dúvida, orientado para o bem dos EUA”.

            A entrevista foi feita antes da confirmação da parte de Putin de que estava disponível para chefiar o governo, quando deixar a presidência, mas diz muito claramente que é contra uma revisão das competências dos órgãos executivos da Rússia, nomeadamente contra a redução de poderes do presidente.

            Evita responder directamente à pergunta se acredita em Deus, mas diz que lê a Biblia, e defende os valores morais, inclusivamente os que derivam de concepções religiosas.

            Não são focados alguns temas “quentes”, como o Kosovo e instalação de bases americanas na Polónia e na República Checa. A entrevista parece-me bastante “americana” e talvez pensada para dar uma imagem mais positiva do “homem do ano”.


publicado por edguedes às 12:12
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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007
RÚSSIA SEM “FACE”

 

            A partir de hoje entrou em vigor a moratória sobre a participação russo no acordo sobre Forças Armadas Convencionais na Europa (FACE). A primeira ameaça de que a Rússia poderia suspender a sua participação surgiu em Abril, quando Vladimir Putin fez o seu discurso sobre o “estado da união”, e em Julho foi assinado pelo presidente um decreto que, depois de ter passado no parlamento e se ter tornado lei, resulta na suspensão unilateral do acordo que agora se verifica. Putin justificou esta decisão com o facto de que os países membros da NATO não ratificaram uma adaptação do FACE, acordada em 1999 em Istambul, que reflecte a alterações geo-estratégicas, ocorridas depois da dissolução do Pacto de Varsóvia e da desintegração da URSS. O FACE, assinado em 1990, limitava a quantidade de armamento convencional da NATO e do Pacto de Varsóvia, e estabelecia inspecções recíprocas e trocas de informação. De acordo com uma nota de Julho do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, “o FACE, na sua versão actual, está irremediavelmente antiquado”, e sublinham que desde a sua assinatura, “já deixou de existir o Pacto de Varsóvia e a URSS”, e “ex-aliados da URSS uniram-se à NATO”. No entanto, os países membros da NATO põem como condição para a ratificação da “adaptação” de 1999, que a Rússia cumpra os compromissos assumidos, por aquela ocasião, de retirar as suas forças da Moldava e da Geórgia.

            O MNE russo voltou a escrever sobre o assunto hoje (dia em que entra em vigor a moratória) e que declara que “se deixa de fornecer informações assim como receber e levar a cabo inspecções. A Rússia, durante o período de suspensão do acordo, deixa de estar vinculada às limitações de quantidade de armamento convencional, incluindo nas regiões de flanco”. No entanto, o MNE russo afirma que Moscovo não tem intenções de concentrar tropas junto às fronteiras dos países vizinhos. Volta a lembrar que o acordo já estava completamente desactualizado e critica os parceiros pelo facto de que o acordo adaptado de 1999, continua por ratificar por parte dos países da NATO, “que ligaram essa ratificação ao cumprimento, por parte da Rússia, de exigências artificias, que não têm nenhuma relação com o FACE”. No entanto, diz que a moratória não é por si mesma um objectivo, “mas um meio de luta da Rússia para restabelecer as condições de vida do regime de controle sobre armamentos convencionais”. Os responsáveis pela diplomacia russa dão algumas sugestões para que se possa ressuscitar o FACE:

- pôr-se de acordo como compensar o potencial acrescido da NATO, em consequência do alargamento.

- estabelecer parâmetros de limitação quanto à instalação de bases militares noutros países.

- eliminar as limitações nas regiões de flanco no território da Rússia (são um impedimento à luta contra o terrorismo).

- garantir que o acordo seja assinado também pelos novos membros da NATO – Lituânia, Letónia, Estónia e Eslovénia.

- o mais depressa possível, e sem condições artificiais, fazer entrar em vigor o acordo adaptado, e começar a sua subsequente modernização.

 

O argumento dos “flancos” diz respeito à região do Cáucaso, onde a Rússia tem problemas de segurança, mas pode ter em vista também as regiões de fronteira com os países Bálticos. No que respeita ao Cáucaso, é um facto que o governo de Moscovo quer ter mão livre para poder concentrar forças na Chechénia, Inguchétia, Daguestão e noutras repúblicas onde o extremismo tem terreno adequado para se desenvolver, mas pode significar também uma concentração de tropas junto ás regiões separatistas da Geórgia, a Ossétia do Sul e a Abkhazia, o que certamente Tbilissi tentará contrariar com todo o empenhamento diplomático e recorrendo às suas boas relações com Washington.

 

O FACE tornou-se no instrumento de luta diplomática ou geoestratégica de Moscovo, para contrapor ao alargamento da NATO, que se pode vir a estender à Ucrânia e à Geórgia, e à instalação de bases do sistema de defesa anti-míssil norte-americano, na Polónia e na República Checa. Não é de excluir também que seja um elemento importante de campanha eleitoral, apesar de que, na campanha parece já ser desnecessário recorrer a quaisquer outros elementos de propaganda.

sugestões:

http://en.wikipedia.org/wiki/Treaty_on_Conventional_Armed_Forces_in_Europe

http://www.policyalmanac.org/world/archive/usnato_cfe.shtml



publicado por edguedes às 22:04
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007
O SUCESSOR

 

 

            Finalmente foi revelado do grande segredo do Kremlin. O nome do sucessor de Vladimir Putin, que parecia apostado em manter o povo em “suspense”, e dependente da confiança ilimitada no “líder nacional”. Putin várias vezes tinha conseguido fintar descaradamente politólogos, jornalistas e outros adivinhos dos destinos do mundo, nomeando para primeiros-ministros e chefes da Administração da Presidência, pessoas que estavam completamente fora das expectativas. Desta vez não. Foi escolhido o top do ranking dos sucessores. Bem, a demora de Putin em pronunciar-se já fazia prever que não iria propor um nome muito estranho, porque, mesmo com toda a confiança que os russos depositam no “líder nacional”, poderia não ser fácil votar num nome que não tiveram tempo de aprender.

            Dmitri Medvedev é, provavelmente, o candidato do consenso. Embora tenha sido um dos mais estreitos colaboradores de Putin, continua a ser considerado um liberal, ou melhor, um dos representantes da ala liberal do círculo de Putin. Por oposição, Serguei Ivanov, que se alternava com Medvedev no topo da escala dos sucessores, é visto como um expoente da ala das “forças”, que significa sobretudo, dos ex-KGBchniki. Deste ponto de vista a escolha de Medvedev pode ser considerada um progresso.

            Medvedev, estudou na faculdade de Direito de S.Petersburgo, tal como Putin, e foi professor de direito durante a década de noventa, tendo colaborado com Putin no município da cidade. Foi para Moscovo quando Putin era primeiro-ministro e, desde então tem sido um dos homens em que o actual presidente mais confia.

            As perguntas, cujas respostas só saberemos mais tarde são:

- o que é que vai fazer Vladimir Putin?

- como vai ser a relação entre Putin e Medvedev-presidente?

- até que ponto vai o liberalismo de Medvedev?

- quem vão ser os colaboradores do novo presidente?

- terá coragem de mudar algumas orientações?  

 

Enfim não vamos continuar a lista, porque se tende a entrar mais nos detalhes e, para todos os efeitos, continuamos sem as respostas.

Uma coisa parece certa. As eleições presidenciais vão ser ainda mais despidas de enredo do que o que foram as parlamentares russas. Medvedev vai buscar votos ainda à pequena área liberal, que ainda subsiste.


publicado por edguedes às 13:04
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Domingo, 9 de Dezembro de 2007
ENCERRA A EXPOSIÇÃO DE SIZA EM MOSCOVO

 

 

            Encerra hoje, em Moscovo, a exposição de Álvaro Siza Vieira, que esteve aberta ao público durante quase seis semanas, no Museu de Arquitectura, a uma centenas de metros do Kremlin. O certame encheu seis salas do museu, com uma notável quantidade de esboços, projectos, maquetas e fotografias, que dão a uma visão da obra do arquitecto ao longo de quatro décadas. Um catálogo de 400 páginas, em russo, enriquece notavelmente a perspectiva oferecida sobre os trabalhos de Álvaro Siza. Organizada com o apoio da “Fundação Avangard”, da Embaixada de Portugal em Moscovo e do próprio museu, a exposição despertou o interesse sobretudo de estudantes e arquitectos. “Um mestre da matéria, do peso, das proporções, do espaço e da luz”, escrevia Grigori Revzin, nas páginas do jornal Kommersant. No entanto, o crítico alertava que não era tanto uma exposição de conhecimentos para o público comum quanto “a apresentação de uma ideia de arquitectura para profissionais”. A exposição incluía maquetas feitas especialmente para a ocasião, exclusivamente em madeira de cor natural, o que Revzin considerou “uma ideia puramente plástica”, mas que torna menos evidente para o cidadão comum perceber “onde é que acaba o cimento e começa o vidro”. Alguns observadores consideram que as obras de Siza Vieira não vão no sentido das “modas” actualmente procuradas pela elite dos empresários russos, que se deixam captar pela novidades e pelo inesperado. Os edifícios de Álvaro Siza Vieira “são muito simples, um mínimo de meios técnicos e materiais comuns, betão, vidro e, às vezes, tijolo”, comenta Revzin, acrescentando que “não são muito fotogénicos e são difíceis de explicar por palavras..., para eles é importante a função, a forma, a realidade da cor e da luz”. O crítico afirma que, actualmente, na Rússia, “há muito de cultura global, e toda a arquitectura que nos chega do Ocidente é arquitectura do globalismo, e é agradável descobrir que lá também há alguma coisa de completamente diferente”.

 



publicado por edguedes às 10:22
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Domingo, 2 de Dezembro de 2007
VOTAÇÕES

Hoje votou-se na Rússia. A surpresa parece ser a entrada para o parlamento do Partido Liberal Democrático, de Vladimir Jirinovski, e do Rússia Justa, que é mais um partido criado nos bastidores do Kremlin. O Rússia Unida, com Putin à frente era mais ou menos de prever que andasse pelos 60%, que se vinha a anunciar, e os Comunistas com 11% ficam um bocado abaixo do que diziam as previsões, mas não muito.  Não obstante os “nãos” frequentes que obtive quando perguntava às pessoas se iam votar, parece que a afluência foi considerada alta, pelo menos mais alta do que em 2003. Já há quatro anos atrás havia a impressão de que o eleitor decidia pouco. Agora há a impressão de que já está tudo decidido. De manhã fui cumprir o meu dever de jornalista e meter o nariz num dos locais de voto. A primeira diferença que notei desde a última vez que tinha feito esta operação, foi um maior controle policial. Um à porta, dois na porta interior, outros que giravam pela sala. Um oficial que controlava a dita porta perguntou-me se ia votar. Eu disse-lhe que era jornalista estrangeiro e que vinha ver. Vê-se que a minha resposta fez entrar em acção o plano nº2. Pediu-me os documentos, leu-os três vezes e chamou um senhor à paisana. Penso que era do FSB (Serviço Federal de Segurança) que, como já me tinha constado, “coordenam” as forças policiais durante as eleições. Este voltou a ler atentamente o meu cartão de acreditação do MNE russo, e foi-me perguntando o que é que eu queria. A ideia de falar com o presidente da mesa de voto parece ter-lhe agradado, porque gente de pouca confiança é sempre melhor orientar para as autoridades. Como a senhora presidenta estava atrapalhada no meio de papéis e mapas, convidaram-me a sentar (ao lado de outro polícia, por via das dúvidas). Finalmente a presidenta lá se desenvencilhou, mas mal começou a dizer-me qualquer coisa, veio outra senhora dizer que a presença dela era necessária, imediatamente, noutro sítio e, gentilmente ofereceu-se para a substituir no interrogatório do jornalista português. Sinceramente, acho que não fiquei a perder com a troca, porque a vice-presidenta, Tatiana Reznik, como depois se apresentou, era mais faladora do que a chefa. Entre as coisa curiosas que me disse, eu sublinho a grande quantidade de pessoas que votam em casa. “Telefonam-nos de organizações como ‘Veteranos da Grande Guerra’ ou os encarregados da gestão dos prédios e nós mandamos lá uma comissão com a urna para que os idosos que têm dificuldade possam votar. A ideia até parece bastante humana, o que é mais curioso é que “10 a 15% das pessoas daquele bairro” votam assim. Depois disse-me que tinham sido pedidos muitos “talões de desvinculação”, um papelinho que o eleitor russo pede na sua comissão local, e com ele na mão pode ir votar onde bem lhe apetecer. O problema é que em muitas situações este sistema é usado não para o cidadão ir votar onde quer, mas onde o mandam votar. Várias organizações, escolas, universidades, etc., assim como empresas, obrigam os seus dependentes a irem votar num dado local de voto. Depois querem que o resultado que dali sai agrade a quem manda. A recusa pode ter consequências desagradáveis.... Enfim é outro tipo de democracia. Por isso, há muitos que pensam que votar ou não votar, o resultado é o mesmo, porque o importante não é como se vota, é como se conta.

            No entanto, devo admitir, que mesmo sem estas artimanhas todas, estou convencido que o partido Rússia Unida, liderado por Vladimir Putin, iria obter, de qualquer forma, a maioria, e provavelmente absoluta. Com mais razão, não se percebe porquê tanta pressão dos órgãos da comunicação social, e tanta concorrência para exibir a própria fidelidade ao Kremlin. Vê-se que quem está no topo nunca está suficientemente seguro de si. Os czares eram muitas vezes desconfiados, o espectro de eventuais golpes de estado pairava no ar, e as desconfianças viravam-se, frequentemente, contra os elementos da corte. O ex-conselheiro de Putin para os assuntos económicos, Andrei Illarionov, diz que destas eleições e das próximas presidenciais, vai sair um regime (mais) autoritário. Na Rússia costuma-se dizer “se vivermos havemos de ver”.


publicado por edguedes às 22:46
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