as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Sexta-feira, 20 de Junho de 2008
CASO POLITKOVSKAIA: INVESTIGAÇÃO PARALELA

 

 

 

 

Na Rússia existem ainda jornalistas que conseguem ter acesso a informações “inacessíveis”. Frequentemente através de amigos que se encontram nas estruturas do Poder, no Serviço Federal de Segurança, etc. É claro que não podem contar como obtiveram essas informações, mas publicam-nas. Depois será da competência dos órgãos de segurança agir, se for caso para isso. Iulia Latinina, pertence a esse grupo de jornalistas com informações, das quais não se pode revelar a fonte mas, em geral, correspondem à verdade. Relativamente ao caso do assassínio de Anna Politkovskaia, Latinina foi desenvolvendo a sua versão e estabelecendo os vários elos da cadeia. Um seu artigo de ontem revela já uma cadeia de contactos indicativos de como as coisas se podem ter passado.
            Segundo Iulia Latinina, por detrás da organização do assassínio poderia estar ou o FSB (Serviço Federal de Segurança) ou Ramzan Kadirov, o presidente da Chechénia, ao qual Anna Politkovskaia tinha “dedicado” a maior parte dos seus artigos, nos últimos tempos antes de ter sido morta. Latinina afirma que estas duas possibilidades se auto-excluiam. Na altura o conflito (de bastidores) entre a gente dos serviços secretos e Kadirov estava no auge, dado que este se preparava para substituir na presidência daquela república Alu Alkhanov, que era o homem de confiança do FSB. De acordo com a interpretação da jornalista, Vladimir Putin, não estava ao corrente da situação, e ficou surpreendido com o assassínio de Politkovskaia, mas percebia donde poderia ter partido a iniciativa. “Putin queria saber quem tinha sido: se era a sua mão direita ou o pé esquerdo”, exemplifica Iulia Latinina, que considera que foi essa curiosidade que levou o presidente a colocar à frente das investigações Piotr Garibian, um dos melhores investigadores criminais da Rússia. “Parece que o presidente satisfez a sua curiosidade, dado que os figurantes no caso Politkovskaia são ou oficiais do FSB, ou agentes do FSB”. Latinina pensa que o crime foi planeado não ao mais alto nível do FSB, porque os recursos usados parecem escassos, e adianta que os executores provavelmente receberam “tostões”, se é que lhes chegou alguma coisa, dado que nem quiseram destruir o carro utilizado no dia do assassínio.
            A cadeia de intervenientes apontada por Iulia Latinina é a seguinte. Como personagem central na organização poderá estar Lom-Ali Gaitukaiev, uma “autoridade” do crime organizado russo, ligado a um grupo da assim chamada “mafia chechena”, o grupo de Lazania (nome do restaurante onde se reuniam). Ao que parece cabia a ele organizar as coisas. Mas Gaitukaiev foi preso no verão de 2006, por tentativa de homicídio de um “business man” ucraniano, e apanhou 15 anos de cadeia. Gaitukaiev é tio dos irmãos Makhmudov, dos quais dois estão presos, como suspeitos no caso Politkovskaia, e um terceiro, que anda a monte, é o suspeito principal de ser o executor do crime. À falta de Gaitukaiev, recorreram ao contacto de Chamil Buraiev, como elemento de ligação com os Makhmudov, e daí os telefonemas do oficial do FSB, Pavel Riaguzov, que supostamente terá fornecido a morada de Politkovskaia, obtida nos ficheiros do FSB.

            Iulia Latinina liga outro acontecimento, ocorrido no princípio deste ano, ao caso Politkovskaia. Foi raptado, em Janeiro, Movlad Altangueriev, considerado a autoridade máxima da “mafia chechena”, ligado também ao grupo de Lazania. Altangueriev, velho amigo de Gaitukaiev, segundo a jornalista, é “uma das mais prováveis candidaturas a intermediário da encomenda (do crime)”. Latinina dá a entender que por detrás do rapto de Altangueriev poderá estar a actual elite chechena, ou seja, Ramzan Kadirov. A importância deste rapto é enorme no que respeita às relações entre o Kremlin e Kadirov. “Como resultado desse rapto, a informação completa sobre os que encomendaram o assassínio de Politkovskaia, parece que agora só têm os próprios autores da encomenda e Kadirov”, considera Latinina. Na sua opinião, Altangueriev pode ser usado para divulgar uma versão que seja conveniente para o Kremlin. Por exemplo acusar Boris Berezovski de estar por detrás de toda a história.

 



publicado por edguedes às 13:58
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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008
CASO POLITKOVSKAIA: INVESTIGAÇÃO CONCLUÍDA

A Comissão de Investigação da Procuradoria da Rússia anunciou hoje (18.06), através do seu representante Vladimir Markin, que está concluída a investigação do caso do assassínio da jornalista Anna Politkovskaia, abatida a 7 de Outubro de 2006, com dois tiros, à entrada do prédio onde habitava. Agora o caso vai ser entregue ao tribunal. Na Rússia, os observadores debatem o que é que isso quer dizer. Encontraram os organizadores e executores do crime, ou não? Infelizmente a reposta parece ser “não”. As autoridades têm na cadeia alguns suspeitos, mas são suspeitos provavelmente de terem tido alguma participação no crime, mas sobre os organizadores não se diz nada e o executor, ao que parece já identificado, encontra-se em “parte incerta”.
            Os primeiros resultados das investigações foram anunciados em Agosto do ano passado, pelo procurador geral, Iuri Tchaika. Na altura foram feitas11 detenções, mas alguns dos suspeitos foram postos em liberdade poucos dias depois. Na altura, a família e os colegas de Anna Politkovskaia exprimiram o seu descontentamento pelas declarações do procurador, dado que aquelas notícias poderiam ter o efeito de um sinal de alarme para os culpados. Neste momento, estão detidos três suspeitos de envolvimento no assassínio da jornalista: Serguei Khadjikurbanov, Ibraguim Makhmudov e Djabrail Makhmudov. Os dois Makhmudov são irmãos do suposto executor do assassinato, Rustam Makhmudov. Detido está ainda um oficial do FSB, Pavel Riaguzov, que era suspeito de ter fornecido aos executores a morada de Anna Politkovskaia, directamente das bases de dados dos serviços secretos. No entanto, conforme adiantou Markin, Riaguzov vai comparecer em tribunal, mas para responder por outras acusações, ou seja, por abuso de autoridade e extorsão, relacionados com outros crimes, em parceria com Khadjikurbanov. Há pouco mais de dez dias tinha sido posto em liberdade Chamil Buraiev, ex-administrador da cidade chechena de Atchkhoi-Martan. Na altura da sua detenção fora apontado como um possível organizador. Na base da acusação estava um telefonema com Pavel Riaguzov, no mesmo dia em que este teria acedido à base de dados do FSB, de onde teria obtido o endereço da jornalista. A julgar pelas decisões da Comissão de Investigação da Procuradoria, as autoridades têm na mão apenas três suspeitos e não os mais importantes.
 
            Dmitri Muratov, chefe da redacção da Novaia Gazeta, onde trabalhava Anna Politkovskaia, considera que é cedo para afirmar que o caso está desvendado. “Nós consideramos que as investigações estão no caminho certo. Muito foi feito, mas não se pode interpretar isso como que as investigações chegaram ao fim e que o crime está desvendado. O assassino encontra-se em liberdade e não está determinado quem encomendou o crime”, declarou ontem Muratov à agência Interfax. O chefe de redacção da Novaia Gazeta chamou ainda a atenção para as fugas de informação que se verificaram nalguns momentos do processo e que possibilitaram ao executor evitar a detenção. “Em relação às pessoas que permitiram essas fugas de informação, devido às quais o assassino se encontra em liberdade e a identidade do que encomendou o crime desconhecida, não se iniciaram processos crime”, sublinhou Muratov.
            Na opinião de Iulia Latinina, colega de Anna Politkovskaia na Novaia Gazeta, as autoridades satisfizeram a sua curiosidade e o caso já não vai muito para além. Na opinião desta jornalista, Putin ficou de facto surpreendido com o assassínio de Politkovskaia e quis saber de onde tinha partido a iniciativa se “do seu pé direito ou do calcanhar esquerdo”. Por outras palavras Latinina afirma que por detrás da organização podiam estar ou o FSB ou o actual presidente da Chechénia, Ramzan Kadirov. As investigações apontam para oficiais e agentes do FSB.

            Segundo a versão de Iulia Latinina, a encomenda de eliminar Anna Politkovakaia teria recebido um certo Lom-Ali Gaitukaiev, tio do tal Buraiev que recentemente foi posto em liberdade. Gaitukaiev seria uma “autoridade” (tipo “padrinho”, na linguagem da mafia siciliana) do crime organizado, mas com estreitas relações com o FSB. Gaitukaiev entretanto foi preso por via de um outro caso, e daí o telefonema do oficial do FSB, Pavel Riaguzov, a Chamil Buraiev, depois de ter obtido o endereço de Anna Politkovskaia na base de dados do FSB. Iulia Latinina teme que no tribunal as coisas não se vão esclarecer, porque as autoridades já tiveram as informações que pretendiam e não têm interesse em ir mais longe. Segundo a jornalista, uma demonstração disso foram as tais fugas de informação, que permitiram ao executor de se pôr a salvo, e aos organizadores de permanecerem na sombra. Veremos se Latinina, que é frequentemente muito radical nas afirmações que faz, vai ter razão. Entretanto, temos que admitir que para investigações concluídas, a informação não é muita.



publicado por edguedes às 15:06
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Terça-feira, 3 de Junho de 2008
MÃES DE BESLAN QUEREM PUTIN EM TRIBUNAL

 

O movimento “Voz de Beslan” vai apresentar uma queixa à Procuradoria Geral da Rússia para exigir que Vladimir Putin seja interrogado “na qualidade de testemunha” do caso do sequestro da Escola nº 1, em Setembro de 2004. Segundo Ella Kessaeva, dirigente da “Voz de Beslan”, “o principal culpado pelo que aconteceu foi Putin”. Kessaeva não esconde que a intenção é que Putin seja incriminado pela tragédia de Beslan. Os argumentos da “Voz de Beslan” baseiam-se no facto que a lei prevê que para que o exército actue fora dos seus objectivos específicos é necessária ordem explícita do presidente. Durante o assalto à Escola de Beslan, intervieram tanques e lança-granadas, pelo que as Mães de Beslan consideram que Putin terá dado ordem para isso. A despoletar agora esta iniciativa, foram algumas das afirmações de Putin na recente entrevista dada ao jornal francês “Le Monde”, por ocasião da sua visita a França. “Qualquer país do mundo, se fizer concessões aos terroristas, no fim de contas vai sofrer perdas mais graves do que as que podem surgir no decurso de uma operação especial (contra os terroristas)”, afirmou Putin ao matutino francês. Segundo Ella Kessaeva, com as suas declarações, o ex-presidente confirma que ele próprio dirigiu as operações para a libertação dos reféns. “É evidente que o ex-presidente, durante alguns anos, enganou as vítimas, e que ele comece agora a dar lições aos serviços secretos dos outros países, é chocante”, afirmou Ella Kessaeva. No entanto, Kessaeva não alimenta grandes ilusões de que Putin possa vir a ser responsabilizado pelo que aconteceu na escola. A “Voz de Beslan” considera que foi a posição do presidente a impedir que pudessem comparecer em tribunal os responsáveis pelo gabinete de crise que tinha sido constituído na altura, incluindo o chefe do FSB (Serviço Federal de Segurança), Nikolai Patruchev, o ministro do Interior, Rachid Nurgalaiev, e o então presidente da Ossétia do Norte, Alexandre Dzassokhov.
De acordo com a visão dos acontecimentos partilhada pela “Voz de Beslan”, o tiroteio e o assalto tiveram origem num disparo de um lança-granadas, feito do alto de um edifício situado na vizinhança da Escola nº1. A versão oficial afirma que foi um dos explosivos montados pelos terroristas no ginásio da escola, que explodiu e fez precipitar os acontecimentos. Recorde-se que no dia 1 de Setembro de 2004, um grupo de terroristas sequestrou 1130 reféns da Escola nº1 de Beslan, e no decorrer do assalto perderam a vida 331 pessoas, das quais 186 crianças.

 



publicado por edguedes às 11:50
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