as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
MISTÉRIOS DO CASO “YUKOS”

 

Não é estranho que apareçam na Imprensa notícias contraditórias relativas a factos difíceis de verificar. Mas nas questões ligadas ao processo da “Yukos”,  há também situações em que tudo deveria ser verificável e, apesar disso, as versões contradizem-se. O mistério está relacionado com Svetlana Bakhmina, a vice-chefe do departamento jurídico da Yukos, mãe de dois filhos pequenos, que cumpriu já mais de metade da pena de 6 anos que lhe foi dada, e a quem foi recusada a liberdade condicional antecipada, não obstante esteja no oitavo mês da gravidez e tivesse referências positivas quanto ao seu comportamento. Há dias foi noticiado que Svetlana Bakhmina tinha dirigido ao presidente um pedido de indulto, admitindo implicitamente a sua culpa. Segundo uma versão, o pedido deu entrada no dia 22, e foi registado pela administração do hospital penitenciário onde se encontrava Svetlana Bakhmina. Hoje, uma notícia baseada em fontes dos serviços prisionais, dizia que ela tinha retirado o pedido. Os advogados dizem que não podem confirmar a coisa, dado que neste momento não têm acesso à sua cliente, que entretanto teria sido transferida para outro hospital. Entre outras coisas, um médico dos serviços prisionais teria dito que a transferência foi decidida pelas chefias e não ditada pelas condições de saúde de Svetlana. Um dos advogados, Roman Golovkin, afirma que a decisão de pedir o indulto tinha sido reflectida e era coerente com os acontecimentos deste último meio ano, em que por duas vezes lhe tinha sido recusada a liberdade condicional antecipada, por isso parece-lhe muito estranho que, dois dias depois, Svetlana Bakhmina se tivesse arrependido de pedir o indulto. Na opinião de Guenri Reznik, um advogado famoso e membro da Câmara Social, podem ter havido pressões para que ela retirasse o indulto. “Se uma mulher que está para dar à luz, que foi separada dos seus dois filhos menores, retira um pedido de indulto devem haver causas muito sérias”, alegou Reznik, o qual não exclui que possam ter posto condições para fazer seguir o pedido, como por exemplo, testemunhar contra o ex-presidente da Yukos, Mikhail Khodorkovski.

            Para adensar o mistério, um alto funcionário do Kremlin (anónimo) teria dito ao jornal “Vedomosti”, que não tinha sido apresentado nenhum pedido de indulto. Esta é também a tese do director dos serviços prisionais, Iuri Kalinin, que afirma que “nunca se registam essas coisas no hospital, que é um local de permanência temporária”, e alega que na colónia penal em que Svetlana Baklhmina cumpre a pena "não há nada".

            Um outro advogado de Bakmina, Ruslan Smakaev, afirma por seu lado que viu o requerimento da sua cliente, no dia 22, na secretaria da colónia penal.

            Além da recolha de assinaturas que está na internet (www.bakhmina.ru), que já conta com cerca de 75 mil subscrições, a favor da concessão do indultoa Svetlana Bakhmina pronunciaram-se várias personalidades, entre as quais Mikhail Gorbatchov.



publicado por edguedes às 15:53
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Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008
COMENTÁRIOS À CRISE

 

Há dois dias, Andrei Illarionov, deu uma conferência de imprensa sob o tema “Catástrofe iniciada”, onde falou, entre outras coisas, sobre a actual crise económica. Illarionov foi conselheiro económico de Vladimir Putin durante o primeiro mandato, mas tornou-se em seguida num acérrimo opositor do regime. Além disso é um liberal inveterado quando se trata de questões de macro economia. Sem subscrever tudo o que ele diz, eu queria citar algumas parte das suas declarações.

 

            ... Não há crise económica na Rússia... há uma diminuição do ritmo de crescimento.... Este fenómeno observa-se pela terceira vez desde 1998. Houve em 2002, houve em 2004, nessa altura foram períodos curtos de desaceleração da actividade económica, e não levou a uma recessão ou a uma crise económica. O que vai haver este ano? Veremos. Não penso que esta desaceleração seja longa e muito profunda.

Muitos prognosticaram uma recessão nos EUA, o que levaria a uma crise global. No entanto, nos EUA não há recessão. A recessão começou onde não tinha sido prevista. Começou na Europa e, no presente, a Itália e a Espanha já estão há dois trimestres com indicadores de crescimento negativos, e nos próximos tempos podem-se-lhes juntar a França e a Alemanha.

...Crise do mercado de acções. Crise do mercado há, quer nos EUA, quer na Rússia. Mas a escala dessa crise, a profundidade dessa crise, é diferente nos dois países. Nos EUA os índices actuais encontram-se abaixo do máximo, que foi atingido em 19 de Maio deste ano, de 32%. O indicador russo RTSI, na sexta-feira, encontrava-se abaixo do valor de 19 de Maio, em 72%. Há uma grande diferença entre uma diminuição de 32% e uma de 74%. ... a Rússia é recordista da queda da bolsa, só perdendo o primeiro lugar nalguns casos com a Ucrânia, onde houve uma crise governamental... A queda da nossa bolsa é duas vezes mais profunda do que o que se passa com os países com uma economia em desenvolvimento. Se compararmos com a queda do preço do petróleo, vê-se que a queda dos preços do petróleo foi mais modesta do que a queda da bolsa na Rússia...  É evidente que os investidores consideram que o que se está a passar na economia russa é muito pior do que o que se passa nos outros países, à excepção da Ucrânia. Isso significa que além das causas comuns, é preciso prestar atenção às causas que existem na Rússia.

... Estas crises podem-se considerar quase normais, que aparecem de tempos em tempos no mercado accionista, crises que estão ligadas à liquidação de investimentos errados. O que transformou este tipo de crises, algumas vezes, em crises económicas catastróficas foi a reacção das autoridades às crises financeiras. E aqui têm parte de culpa quase todos os governos, começando pelo dos EUA, dos países europeus e da Rússia.

Agora as autoridades destes países começaram a investir recursos gigantescos para apoiar o sistema bancário, para suster o mercado de acções, para apoiar os investimentos pouco eficazes que nos anos passados. Isso diz respeito aos EUA, à Europa e ao nosso país. Mas há diferenças, que dizem respeito à escala. O pacote que foi discutido e aprovado pelo Congresso dos EUA prevê a concessão ao longo de uma série de anos de um montante de 700 mil milhões de dólares, o que corresponde aproximadamente a 5% do PIB. As autoridades russas concederam um montante que, de acordo com o que foi anunciado ultimamente, corresponde a 12% do PIB, ou seja, 2,5 vezes o que as autoridades americanas decidiram.

A intervenção das autoridades americanas e europeias enquadra-se no contexto da intervenção estatal para apoiar todos... A situação russa é mais complicada, deste ponto de vista. Porque as autoridades russas não só concedem fundos para apoiar as decisões ineficazes numa escala que já é 2,5 vezes o que é feito pelas autoridades americanas, mas junto com isto resolvem uma outra “tarefa”. Eles concedem esses fundos a um círculo restrito de bancos e de corporações, em parte estatais, em parte privadas, em parte com um estatuto pouco claro, mas de qualquer forma, trata-se de companhias e bancos que têm uma relação privilegiada com o poder... Ou seja, o processo que se passou no âmbito político russo, o estabelecimento por parte das autoridades do monopólio no mercado político, agora realiza-se com o auxílio de recursos enormes, das reservas de divisas, das reservas de estado, dos recursos do orçamento do estado, concedendo a um círculo restrito de companhias e bancos, próximos das autoridades russas, para levar a cabo um controle quase um monopólio, sobre a economia russa. Isto é de facto uma catástrofe.



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PRIMEIRO-MINISTRO

  

            A Ossétia do Sul tem um novo primeiro-ministro. Chama-se Aslambek Bulatsev e é osseta... do norte. Antes era o chefe da Inspecção de Finanças da Ossétia do Norte. Não é muito de estranhar. A Ossétia do Sul tem falta de quadros, nos últimos anos a gente do lado Sul ia frequentemente estudar e ganhar a vida do outro lado do Cáucaso, e famílias com parentes dos dois lados são muitas. Mas no currículo de Bulatsev há outros particulares dignos de interesse. O novo primeiro-ministro, nascido em 1963, exerceu durante vinte anos o seu trabalho nos “órgãos de segurança do estado”, ou seja no KGB e, quando a instituição mudou de nome, no FSB. Foi chefe do “sector de finanças da direcção do FSB” na Ossétia do Norte. Com a procura que têm tido, na Rússia, os ex-agentes, para altos cargos do Estado (não quero dizer que a Ossétia do Sul deva reger-se pelas regras que existem na Rússia, mas... ) quase me arrisco um prognóstico de que Bulatsev pode chegar a presidente daquele território (é melhor não dizer “país”, “nação” ou “província”, para não ser acusado de estar a tomar uma posição política). 


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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008
SVETLANA BAKHMINA PEDE INDULTO

 

A vice-chefe do departamento jurídico da “Yukos”, Svetlana Bakhmina, que está a cumprir uma pena sob a acusação de furto de acções da companhia “Tomskneft-VNK” e de fuga ao fisco, dirigiu um pedido de indulto ao presidente russo Dmitri Medvedev. Anteriormente foi-lhe recusada, já por duas vezes, a liberdade condicional antecipada, mesmo se Svetlana Bakhmina já cumpriu mais de metade da pena de 6,5 anos, tem dois filhos menores, de 7 e de 9 anos, e está no oitavo mês de gravidez (uma vez por trimestre pode ser concedida a licença para uma visita de três dias do marido, numa “residência” da colónia). Na carta dirigida ao presidente Svetlana reconhece a sua culpa, coisa que no tribunal e até agora sempre tinha negado. Há pareceres que consideram que o pedido de indulto implica o reconhecimento da culpa. “É a minha primeira pena, tenho referências positivas da parte do meu anterior local de residência e de trabalho, e também da parte da administração da colónia penal...” escreve Bakhmina, na carta dirigida a Medvedev, e sublinha que “nunca foi nem abastada nem grande dirigente (empresarial)”, assim como “não tirou proveito nenhum dos crimes” de que é acusada. “Tudo o que eu pretendo é voltar para junto dos meus filhos”, escreve. Segundo um funcionário anónimo do Kremlin, citado pelo jornal Vedemosti, a decisão do presidente vai ser favorável. No entanto, a probabilidade de que o terceiro filho de Svetlana Bakhmina nasça na cadeia é muito grande. Calcula-se que o pedido oficial de indulto possa demorar três meses a chegar ao Kremlin. Uma carta aberta ao presidente Medvedev, a pedir o indulto para Svetlana Bakhmina, que se encontra na internet conta, actualmente, com mais de 52 mil assinaturas. Na semana passada, um grupo de representantes da “Câmara Social” da Federação Rússia também tomou a iniciativa de escrever ao presidente. Duma forma geral, há a impressão de que os casos ligados ao processo da Yukos, foram alvo de penas excessivas, em situações em que as acusações eram muito pouco consistentes. Dado que os métodos usados na companhia de Mikhail Khodorkovski não diferiam muito dos usados noutras grandes empresas da Rússia, alguns observadores pensam que por detrás das decisões do tribunal estavam decisões políticas. Deve-se ainda recordar que, ainda durante a campanha presidencial, Dmitri Medvedev propôs-se “desenraizar a prática de decisões injustas (nos tribunais) resultantes de ‘telefonemas’ ou a ‘pagamento’”. Espera-se alguns sinais positivos.



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Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008
MUDAM-SE OS TEMPOS

 

Fidel Castro recebeu mais uma condecoração da Rússia, mas desta vez foi do Patriarcado de Moscovo. Mais precisamente recebeu a ordem de “Glória e Honra” pelo seu contributo ao fortalecimento da colaboração inter-religiosa e pela inauguração da Igreja de Nossa Senhora de Kazan, em Havana. Foi o metropolita Kirill, responsável pelas relações externas da Igreja Ortodoxa Russa, e considerado a segunda figura do Patriarcado de Moscovo, que condecorou o “comandante”. “A Igreja em Havana foi concebida e construída como um monumento à amizade russo-cubana, e como um agradecimento ao nosso povo que deu um enorme contributo para a manutenção de Cuba como um país independente e para o crescimento do seu potencial económico”, declarou o metropolita.

            Também Raúl Castro, que esteve presente na cerimónia da inauguração da igreja, não foi esquecido. Para ele o Patriarcado di Moscovo destinou a ordem de primeiro grau do “Príncipe S. Daniel de Moscovo”, pelo seu contributo para a construção da igreja em Havana. 



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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008
YUKOS - AINDA EM FOCO

 Dentro de dias (15 de Outubro), deverá ser apreciado por uma instância superior do tribunal de Tchita (Sibéria oriental) o caso da recusa em primeira instância do requerimento de concessão de liberdade condicional antecipada a Mikhail Khodorkovski. Entretanto ele foi colocado de castigo na cela de isolamento, durante 12 dias, e os guardas prisionais foram instruídos no sentido de proceder a uma rigorosa vistoria dos advogados do ex-milionário, sempre que estes o visitem. A causa destas medidas, foi a publicação de uma entrevista com Khodorkovski, por parte do escritor e jornalista Grigori Tchkhartichvili (de pseudónimo, Boris Akunin) na revista “Esquire” (http://www.khodorkovsky.ru/docs/8737__Esquire_Interview_MBK-Rus.pdf). A entrevista é um resultado da correspondência entre os dois, para qual não é de excluir que os advogados tenham feito de correio. Embora os advogados considerem que as autoridades prisionais não têm razão em castigar Khodorkovski, percebe-se que a entrevista tenha provocado reacções. Boris Akunin conseguiu que Khodorkovski falasse do que sente, da sua vida familiar, dos seus ideais, do processo que decorreu contra ele e do que pensa do futuro da Rússia. A impressão que eu tive, é que a abertura provoca empatia, o que por sua vez leva a tomar como provavelmente verdadeira a versão dos factos apresentada por Khodorkovski. Mesmo assim, as autoridades não têm razão para se assustar. Não é a revista “Esquire” que forma a opinião pública.

 

            A propósito do caso Yukos, e antes de passar a alguns extractos da dita entrevista, queria ainda dizer que está em curso na internet uma campanha a favor da concessão de liberdade condicional antecipada a Svetlana Bakhmina. Esta jurista da Yukos foi condenada a 7 anos de prisão, no âmbito dos processos abertos contra a companhia de Khodorkovski, e já cumpriu mais de metade da pena, o que lhe daria a possibilidade de beneficiar de liberdade antecipada. Svetlana Bakhmina tem dois filhos, um de sete anos e um de nove. Em março beneficiou de uma saída precária durante alguns dias e ficou grávida. A liberdade condicional antecipada foi recusada, já por duas vezes, por um tribunal de Moscovo. A carta, dirigida ao presidente Dmitri Medvedev, aberta na Internet (http://bakhmina.ru/), até este momento, foi assinada por 21 mil pessoas, mas o número de assinaturas continua a crescer a cada minuto. Svetlana Bakhmina faz hoje 39 anos.

 

            Voltando à entrevista de Khodorkovski. Respondendo à pergunta se não lamenta não se ter ido embora da Rússia enquanto era tempo, o ex-presidente da Yukos responde “quanto a isso há uma esquizofrenia. Metade do meu eu já lamentava naquela altura, ter regressado (duma viagem), e continua a lamentar a cada dia que passa, longe da família e de casa. A outra metade é a que responde pelo sentido do dever, e pensa em categorias de honestidade e traição, e não me dá a possibilidade de viver em paz. Pode ser que os meus critérios sejam estúpidos. Pode ser que devesse ser mais flexível. Provavelmente. Mas eu tenho 45 anos, e eles estão formados. Ir além de mim mesmo talvez pudesse mas, tendo-o feito, não saberia como viver”.

... “Eu tenho uma grande esperança que os meus filhos, que desde a idade do infantário sabem que o “pai está na prisão”, vão crescer compreendendo porque é que não era possível de outra forma. A minha mulher promete-me que lhes consegue explicar isso”.

 

A respeito do processo:

“Eu não tinha dúvidas de que a Procuradoria me pudesse manter na prisão durante muito tempo, mas quase até ao fim não acreditava que o tribunal pudesse pronunciar um veredicto de condenação sem provas e, principalmente, contra a evidência dos factos, ainda por cima num processo aberto. Eu pensava que o tribunal é sempre um tribunal, pode jogar com os acusadores, mas não pode abertamente violar a lei... Resulta que pode, e de que maneira”...

 

A propósito dos acusadores:

“O procurador Chokhin e a juíza Kolesnikova? são funcionários menores, que nunca teriam sido metidos no caso se não houvesse contra eles material comprometedor.  Kolesnikova estava dependente de uma queixa contra ela que continuava na Procuradoria sem resposta, isto ao longo de todo o processo. Queixas análogas deram penas de 12 anos a colegas seus (questões de apartamentos)... No que respeita a Chokhin, os seus problemas são compreensíveis. Que ele tenha decidido não tomar posição contra as chefias e preferiu mentir com criatividade no tribunal (o que eu denunciei), infelizmente, é uma consequência inevitável do sistema de garantias viciadas em que ele vive”...

“Ninguém, sublinho, ninguém testemunhou contra mim e Platon (Platon Lebedev, presidente do grupo Menatep). Alguns até se decidiram a testemunhar em nossa defesa. E estas eram as testemunhas seleccionadas entre as pessoas que deviam ser a parte ofendida por nós... Dezenas de pessoas que, apesar da enorme pressão, se recusaram a ir contra a própria consciência... Entre estes havia também funcionários da Procuradoria, que se recusaram a mentir por ordem das chefias.”

 

Sobre o que poderia estar por detrás do processo:

“... Até 2003 a administração do presidente e o governo sabiam tudo de nós, quem éramos, quem ajudávamos, quais a questões que eram objectivo dos nossos ‘lobbies’. Tudo mudou em 2003. Podemos pormo-nos a adivinhar porquê. A proximidade das eleições, ou a política de informação do sector vindo das “forças”... Duma forma ou de outra a situação alterou-se sem análises prévias... Nós tínhamos conseguido empurrar uma lei (no Parlamento) que a respeito do transporte nos oleodutos, que era “a igualdade de acesso ao oleoduto”, ou seja as quotas que antes eram “criativamente” confirmadas pelos funcionários em cada trimestre, passaram a estar fixadas pela lei. Nós conseguimos fixar na lei as escalas de taxas alfandegárias, que eram uma coisa  que “alimentava uma massa” (de funcionários)... e ainda outras emendas análogas contra a corrupção... Mas no lugar de uns corruptos já se levantavam outros. Eu percebi que sem apoio político não se conseguia nada. E foi decidido apresentar a questão da corrupção ao presidente... Eu falei sobre o gigantesco mercado da corrupção no país que, na altura era 30 mil milhões de dólares, 10% do PIB (no início de 2008, o vice-procurador geral afirmou que era 240 mil milhões de dólares, 20% do actual PIB). Depois de isso, em Março, começaram os ataques...”

 

“Cinco anos de cadeia significa também contínuas mudanças e muitas limitações. Só se podem levar atrás poucas coisas. É pena ter de deixar os livros, perder os apontamentos. Mas eles permanecem, na cabeça. O resto é insignificante. Nesse sentido, a prisão torna o homem mais livre.”

 

A propósito dos valores e da Fé:

“Porque é que a democracia é melhor do que a ditadura? Porque é que a liberdade é melhor do que a falta de liberdade? Porque é que mentir e cometer vilezas é um mal? Porque é que se deve amar o próximo? Porque é que se deve defender a Pátria, salvar os outros, a custo da própria vida? Depois não há mais nada! Mas pode ser que haja?...

... “A sociedade que estiver mais próxima daquilo que o homem realmente é será mais feliz e mais bem sucedida... Eu acredito na aspiração interior do homem para a liberdade, para o amor, para a verdade e que só por esse caminho ele se pode sentir feliz. Provas? Não tenho... Nós vivemos não só para poluir o ar e a água. Nós existimos para algo de maior. Para o quê, eu não sei. Cada um de nós, individualmente, para a felicidade. E todos em conjunto? Penso que há um Grande Objectivo para a humanidade que não me é dado compreender...”



publicado por edguedes às 11:17
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
INGUCHÉTIA INSTÁVEL

 Na agitada república da Inguchétia continuam a passar-se coisas que alimentam a instabilidade. O caso mais em foco é o da morte de Mogamed Evloev. A notícia oficial que apareceu (já há dois dias), foi a respeitante às conclusões das investigações sobre a estranha morte da figura mais saliente da oposição ao poder local. O conteúdo das conclusões da Procuradoria foi divulgado pelo advogado de Evloev, Magomed Abubatarov. Recorde-se que Evloev foi detido à saída do avião que o trazia de Moscovo, e foi deixado, pouco depois, à porta do hospital, com um tiro na cabeça. Pois bem, os procuradores chegaram á conclusão que Mogamed Evloev, foi ferido na cabeça por um tiro disparado involuntariamente da pistola de um dos guardas que o levavam. A pistola seria a de Ibraguim Evloev (tem o mesmo apelido do que a vítima mas não é parente), o qual foi deixado em liberdade sob compromisso de não deixar o território. O nome coincide com o que já tinha sido anunciado pelos familiares e colegas de Magomed Evloev, que levaram a cabo investigações por sua conta. Deve-se ainda acrescentar que Ibraguim Evloev não é propriamente um polícia qualquer, mas o chefe da guarda pessoal do ministro do Interior da Inguchétia, Mussa Medov. Porque é que era o chefe da guarda pessoal do ministro que devia efectuar a detenção do expoente da oposição, é outra questão que está por esclarecer. Segundo Iakhia Evloev, pai de Mogamed, o autor do disparo já tinha precedentemente ameaçado o seu filho, e o facto de ele se encontrar entre os homens que deviam levar a cabo a detenção, é uma prova do que a acção foi premeditada.

 

            Numa entrevista que apareceu hoje do portal do qual era proprietário Mogamed Evloev, o ex-presidente da Inguchétia, Ruslan Auchev, fez alguns comentários à situação que se vive naquela república. “O assassinato de Evloev é político”, afirma de forma muito directa Auchev, considerando que os motivos da eliminação do representante da oposição foram “a sua actividade, em primeiro lugar o portal, do qual ele era proprietário”. “Se a situação fosse normal, no mínimo era preciso suspender o ministro do Interior durante o período em que decorrem as investigações”, afirma o ex-presidente. Considera que uma das causas dos problemas da Inguchétia é o sistema que actualmente vigora na Rússia, em que os governadores são nomeados pelo presidente. “Quando se é nomeado, olha-se só para cima, defendem-se os interesses dos que estão em cima, e os que estão em baixo não interessam”. Numa entrevista precedente, à rádio “Ecos de Moscovo”, Auchev tinha afirmado que na Inguchétia há “elementos evidentes de uma guerra civil lenta”. “A pressão violenta provoca em resposta outra pressão violenta e a sociedade está-se a radicalizar, sobretudo a juventude”. 



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Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008
A Crise

O índice da bolsa continua a cair e a ameaçar bancos, companhias de seguros, e atrás destes tudo o resto. O cidadão comum começa a preocupar-se seriamente com as suas poupanças. O Estado diz que as assegura, mas a experiência de crises anteriores é que as seguranças desaparecem quando a crise é forte. 

Isto foi assim no dia 16.09.08

 

foi a chamada "terça-feira negra"

 

Na altura chamaram a atenção para o facto de que o índice RTSI tinha passado abaixo do valor 1200.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

hoje já vai assim. Pelo meio as "quedas" já foram muitas.

 

O RTSI chegou ao valor 760. 

 

 

A solução foi: férias até depois de amanhã.

 

Pode ser que nos EUA inventem alguma coisa e que as tendências se invertam.

 

Em Moscovo, parece que já perceberam que quanto mais se agitam mais se afundam.

 



publicado por edguedes às 12:37
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Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
ANNA POLITKOVSKAIA. DOIS ANOS DEPOIS

 

 

Passaram-se dois anos desde que Anna Politkovskaia foi assassinada à saída do elevador da sua casa. Hoje houve uma manifestação na praça Puchkin, em Moscovo, para recordar a jornalista e para sublinhar que há quem queira ver os resultados das investigações da polícia. Pensei em passar por lá, em sinal de homenagem a Anna Politkovskaia. Chovia e estava à espera de que houvesse muito pouca gente. Mesmo assim haveria umas 300 pessoas na praça. Polícias eram certamente muito mais. Entre as pessoas que tomaram a palavra havia colegas, defensores dos direitos humanos e alguns políticos, estes todos da área liberal, que quase perdeu completamente a expressão (Mikhail Kassianov, Boris Nemtsov, Garry Kasparov, Leonid Gozman). Acabei por ficar até ao fim. A coisa que achei mais interessante foi uma antecipação de um filme sobre Politkovskaia. O resto das informações novas já tinha saído na “Novaia Gazeta” onde a Anna trabalhava.

            Saiu uma entrevista com o investigador principal que tem estado a seguir o caso, Petros Garibian, do Comité de Investigação da Procuradoria-Geral da Rússia, em que se precisa alguns pontos. O caso foi enviado para tribunal e o processo poderá ter início no próximo dia 15 no Tribunal Militar do Círculo de Moscovo. Garibian explicou que foi parar a um tribunal militar porque há um dos figurantes, o tenente-coronel Riaguzov, que é do FSB (Serviço Federal de Segurança). Há o risco de o caso vir a ser um julgamento à porta fechada, dado que há documentos “secretos” que dizem respeito a Riaguzov e a Khadjikurbanov, este ex-agente da Direcção de Investigação Central para o Combate ao Crime Organizado. Segundo Garibian, não há provas de que Riaguzov esteja ligado ao assassínio de Politkovskaia, mas Khadjikurbanov é acusado de ser o organizador. Ambos figuram como réus num outro caso, de extorsão, por isso, os dois crimes ficaram ligados num único processo...

            Garibian afirma que o quadro de como as coisas se passaram está relativamente claro. Os quatro figurantes que são acusados de envolvimento directo no crime são Serguei Khadjikurbanov e os irmãos Makhmudov, mais precisamente Djabrail, Ibraguim e Rustav, originários da Chechénia. Rustav seria o autor dos disparos, enquanto os outros dois irmãos ajudaram a seguir a vítima e informaram o “killer”. Rustav Makhmudov anda a monte, não se sabe onde. Garibian disse à Novaia Gazeta, que mesmo que soubesse onde ele estava não o diria. Consta que ele conseguiu fugir para fora da Rússia quando algumas informações sobre o andamento das investigações “escaparam” para os jornais. Segundo Garibian, o crime foi ensaiado previamente, e as imagens das video-câmaras de segurança mostraram que uma vez o assassino deu de caras com Anna Politkovskaia ao abrir a porta da entrada do prédio. O investigador é da opinião de que os três que estão presos, assim como o executor do crime, agiram simplesmente por dinheiro, por isso ainda falta a parte mais importante das investigações, que é descobrir quem encomendou o crime. Quanto a saber coisas dos que já estão presos, considera que é muito difícil. “Acha possível que irmãos, de etnia chechena, possam testemunhar uns contra os outros?”, replicou Garibian à pergunta do jornalista, sobre a disponibilidade dos detidos a colaborar com as investigações. No entanto, o investigador afirma que as investigações não pararam e que o processo teve de avançar com as acusações contra os que já estavam detidos, para respeitar os tempos previstos pela lei russa. “Nós ainda estamos a trabalhar em toda a cadeia (de factos). Ainda vão ser chamadas à responsabilidade outras pessoas, se nós conseguirmos descobrir e provar a sua culpa. Tudo isso será num processo à parte”, refere Garibian.

            No entanto, os familiares e colegas de Anna Politkovskaia insistem no facto de que o processo deve ser aberto. Há muitos precedentes da justiça russa em que a transparência não é a nota dominante, e um processo à porta fechada é meio caminho andado para não se chegar a saber quem é que estava por detrás do assassínio de Anna Politkovskaia.

 



publicado por edguedes às 16:32
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Domingo, 5 de Outubro de 2008
A AVENIDA

 Putin tem finalmente uma avenida dedicada à sua pessoa. O acontecimento teve lugar hoje em Grozny, a capital da Chechénia, famosa por uma guerra que fez dezenas de milhares de mortos, e obrigou uma boa parte da população a viver em tendas durante meses a fio. Agora, na cidade renascida das ruínas graças á mão forte de Ramzan Kadirov, a avenida mais importante que antes era a Avenida da Vitória, passou a ser Avenida V. V. Putin. Kadirov afirma que não poderia ser de outro modo, dado que é preciso reconhecer “os méritos inegáveis de Putin no combate ao terrorismo, no restabelecimento da economia e das esferas sociais da república da Chechénia”. “Como checheno, como muçulmano, eu declaro que estou pronto, se for necessário, a morrer por Vladimir Putin”, afirmou o herói da Chechénia. Isto sim que é um presidente de uma região administrativa da Federação da Rússia.

Convém ainda notar que a Avenida V.V. Putin, começa na Praça Akhmat Kadirov, o pai do actual senhor da Chechénia. Kadirov (filho) escolheu um dia especial para solenizar o acontecimento. O dia do seu próprio aniversário. Completou 32 anos o presidente da Chechénia, e a população, reconhecida, saiu à rua para o saudar. 



publicado por edguedes às 20:35
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