as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009
DEPOIS DA SENTENÇA

 

Os suspeitos cúmplices do assassino da jornalista Anna Politkovskaia foram absolvidos. O caso regressa à Comissão de Investigações da Procuradoria, as procuradoras que tiveram a seu cargo a acusação afirmam que vão apelar. A posição da parte lesada, as advogadas dos filhos da jornalista, por seu lado, é de que não vale a pena recorrer. Aparentemente voltou-se à estaca zero. No entanto, a “Novaia Gazeta” tem procurado fazer também as suas investigações, que parecem não andar muito longe da versão dos investigadores oficiais. Queria referir aqui alguns pontos da versão divulgada pela jornalista Iúlia Latinina e das perguntas que esta considera fundamentais, e que ainda estão em aberto. Como já tinha dito o redactor chefe da Novaia Gazeta, Serguei Sokolov, no dia em que os jurados emitiram o veredicto, na versão dos colegas e familiares de Anna Politkovakaia, os réus que foram a tribunal estão de facto relacionados com o crime, e a sua culpa não foi provada porque a acusação trabalhou mal. Segundo Iúlia Latinina, há ainda a ter em conta o trabalho do advogado de defesa, Murad Mussaev que, segundo a jornalista, é actualmente um dos melhores advogados russos e que soube “trabalhar para os jurados”, desmontando as provas que a acusação apresentou. No entanto, sempre segundo Iúlia Latinina, isso não exclui que os réus tenham mentido. Latinina considera que o processo foi levado ao tribunal “aos bocados”, com falta de ligações lógicas, o que acabou por tirar credibilidade à acusação. Na opinião da jornalista, como já tinha sido dito outras vezes, o enredo do caso leva a ligações “curiosas” entre forças da ordem e grupos criminosos (máfias). Como já tinha dito Sokolov, também Latinina considera que as testemunhas podem actualmente estar em risco.

 

Lacunas na investigação

O crime apresentava um certo “à vontade” dos executores. Foi utilizado o carro dos irmãos Makhmudov (que eles negaram ter, depois admitiram). O blusão que endossava o suspeito executor, Rustam Makhmudov, era o seu. Dois dias depois da morte de Anna Politkovskaia, ele teria sido identificado, mas a informação só chegou à Comissão de Investigação da Procuradoria meio ano depois. Entretanto, Rustam Makhmudov, no dia a seguir ao dia em que tinha sido identificado, consegue um passaporte falso e sai da Rússia.

De acordo com o raciocínio de Iúlia Latiniana, os organizadores do crime e os que o encomendaram, “estavam muito perto uns dos outros”, não havia uma longa cadeia para chegar ao “encomendador”, e “quando ficou claro quem era o que tinha encomendado, retiraram os organizadores do caso”. O que levou a que no tribunal só tenham aparecido uma parte das peças que compunham o mosaico do crime, e por isso a acusação se apresentava inconsistente. Uma das críticas de Iúlia Latinina vai para o facto de ter sido ilibado Chamil Buraev, ex-presidente da câmara de cidade chechena de Atchkhoi-Martan (Chechénia), que chegou a ser detido numa fase precedente das investigações. “No dia do assassínio, Serguei Khadjikurbanov (acusado de ser o organizador do crime) telefonou várias vezes a Chamil Buraev e ao seu motorista Iakhei”, diz Latinina e pergunta porque é que não se verificou a quem Buraev telefonou ainda nesse dia? Segundo a jornalista, o investigador principal do caso, Piotr Garibian, “sabe provavelmente a resposta”. Pergunta também porque é que um personagem como Lom-Ali Gaitukaev (segundo a versão da Novaia Gazeta, o organizador inicial do crime era ele, só que foi preso no verão de 2006, antes do assassínio de Politkovakaia) não foi incriminado no caso. Segundo a versão da Novaia Gazeta, a “encomenda” teria sido feita a Chamil Buraev e transmitida por este a Gaitukaev, que entretanto foi preso por outra tentativa de homicídio, e o passou a Khadjikurbanov. Resulta dos contactos entre os vários personagens um “terrível novelo de polícias e bandidos”. Sabia-se que há quem tivesse andado a seguir Anna Politkovskaia poucos dias antes do assassinato. Segundo a Novaia Gazeta, as pistas levam a uma espécie de agência de detectives, que continua a oferecer os seus serviços na internet, mas que foram ignorados no processo. Entre as pessoas que andaram a seguir Politkovakaia, aparece um ex alto oficial da polícia, Dmitri Pavliuchenkov. Do seu telefone resulta que provavelmente a encomenda de seguir Politkovskaia teria sido feita por um grupo criminoso. Outro dado curioso, é que o suspeito executor, Rustam Makhmudov, tinha um mandado de captura pendente desde 1997, mas “isso não impediu que ele fosse com o tenente-coronel do FSB, Pavel Riaguzov, (suspeito de ter fornecido o endereço de Anna Politkovakaia), com um passaporte falso, à cidade de Rostov, reconhecer um checheno”.

As provas que havia contra os outros dois irmãos Makhmudov, Ibraguim e Djabrail, era que eles tinham telefonado um ao outro, antes e depois do assassinato de Anna Politkovskaia, muito perto do local do crime. As justificações destes foram sempre do tipo, “não me consigo lembrar”. O que é que eles estiveram a fazer hora e meia na rua Lesnaia (onde morava e foi morta Anna Porlitkovakaia) eles não explicaram.

Latinina refere ainda uma viagem conjunta de Gaitukaev, Buraev, Riaguzov e Sliussar (chefe do departamento do FSB onde Riaguzov trabalhava) a Nazran (captial da Inguchétia), assim como um encontro num restaurante, no verão de 2006, dos mesmos quatro personagens com ainda um certo Alikhan Mutsaev.

 

Iúlia Latinina afirma que seria fácil preencher os “buracos” do caso Politkovakaia, respondendo a algumas perguntas. “Se amanhã, o presidente Medvedev ou o primeiro-ministro Putin chamassem o investigador Garibian e lhe perguntassem duas coisas (primeira pergunta: quem é o tal Mutsaev, que se encontrou com o bandido Gaitukaev, com os elementos do FSB no restaurante? A segunda pergunta: a quem telefonou Chamil Buraev, no dia 7 de Outubro, dia do assassinato de Anna Politkovskaia?)”, a jornalista está convencida de que o investigador sabe a resposta a estas duas perguntas e que dessas se pode deduzir o nome de quem encomendou o crime com uma probabilidade de 100%.

As investigações não foram até ao fim porquê? Na entrevista que foi dada no dia do veredicto, a advogada Karina Moskalenko, não se mostrou condescendente para com o trabalho dos investigadores, porque estes não se queixaram de que lhes estavam a barrar o caminho. Qual é o sentido de levar uma investigação incompleta a tribunal? Talvez a esperança de que perante o juiz as coisas se esclareçam. Neste caso não foi assim, e agora há que voltar ao princípio, mas talvez sabendo mais coisas do que se sabia antes do caso ter chegado a tribunal.



publicado por edguedes às 22:02
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