as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
RÚSSIA E POLÓNIA DEPOIS DE SMOLENSK

 

NA RÚSSIA DEPOIS DE SMOLENSK

 

(tradução dum artigo feito, em italiano, para a revista Città Nuova)

 

Passaram-se alguns dias desde o momento da tragédia em que perdeu a vida o presidente Lech Kaczynski, perto da cidade russa de Smolensk, mas defronte à embaixada da Polónia em Moscovo, o passeio continua atapetado de flores. Duas senhoras aproximam-se para colocar dois maços de flores muito bem apresentados. Aproximo-me interessado em saber se elas têm alguma relação especial com a Polónia. “Não, nada de especial, ou seja, estive lá há alguns anos atrás”, diz-me uma. “Em tempos escrevia-me com uma rapariga da Polónia”, acrescenta a outra. O verdadeiro motivo desta manifestação de solidariedade é a dor de um povo que não pode deixar-nos indiferentes. “Esperemos que, depois desta tragédia, as relações entre os nossos países se tronem mais fraternas e que os governantes percebam esta nossa exigência”, acrescenta ainda, enquanto se dirige para o portão da embaixada.

O fenómeno da solidariedade em relação ao povo polaco na hora da tragédia viu-se um pouco por todo o lado. Mas na Rússia este acidente provocou um certo desconcerto. O acidente deu-se em território russo e num contexto um bocado incómodo. Katin, para onde se dirigia o chefe de Estado polaco, recorda uma das páginas mais chocantes da história da URSS, infelizmente semelhante a várias outras. Polígonos onde se deram execuções em massa há muitos no território que agora é a Federação Russa. Sobretudo na segunda metade dos anos trinta, do século passado, as eliminações sistemáticas repetiam-se em vários locais da Rússia. Talvez por isso, os russo não percebem muito o porquê da insistência polaca sobre “o processo de Katin” (esta designação aplica-se não só ao fuzilamento dos 4400 oficiais na floresta de Katin, mas ao conjunto dos 22 mil executados em vários campos de prisioneiros).

Lech Kaczynski não tinha certamente um grande amor à Rússia. Durante o seu mandato, ele esteve em território russo só uma outra vez, e foi para visitar Katin, sem passar por Moscovo e sem se encontrar com nenhum governante russo. A ideia de que, até hoje, Moscovo não fez o bastante para reconhecer o que se passou em 1940, continua a pesar nas relações entre os dois países. No entanto, na hora da desgraça parece que ninguém tem vontade de recordar as velhas incompreensões. Para além das medidas que seriam de obrigação de fronte a um acontecimento tão chocante como o do acidente que vitimou Kaczynski e a sua comitiva, as autoridades russas tomaram algumas medidas pouco comuns (aqui por estes lados), como a admissão de investigadores polacos em todas as fases das investigações sobre o acidente. Também em sinal de solidariedade, o primeiro canal da televisão russa exibiu o filme “Katin”, do realizador polaco Andrzej Wajda, no dia seguinte ao da tragédia de Smolensk (o filme tinha sido exibido também poucos dias antes, mas no canal Cultura, de pouca audiência, e com um debate crítico em seguida). Por vezes a dor dá a coragem de ter um olhar mais realístico sobre os factos, o que dá esperança de que as relações se possam tornar mais sinceras depois da tragédia.

 

_______________________________________________

 

De alguns extractos da Imprensa.

Se nos primeiros momentos depois da tragédia se podia pensar que se iriam levantar novas suspeitas para deteriorar ainda mais as relações entre russos e polacos, o facto é que o efeito tem sido o contrário. Cito dois casos que chegaram à Imprensa russa.

 

Deputado polaco pediu desculpa:

O deputado polaco Artur Gursky, membro do partido “Lei e Justiça”, fundado pelos gémeos Kaczynski, pediu desculpas pelas suas declarações feitas no dia o acidente aéreo. Nessa altura Gursky tinha declarado aos jornalistas que “Moscovo tinha não só responsabilidades morais pela tragédia de Smolensk”, mas adiantou que “a Rússia não queria ver o presidente polaco nas cerimónias de Katin”, para não obscurecer o encontro dos dois primeiros-ministros que tinha ocorrido ali três dias antes. Às desculpas Gursky acrescentou a justificação de que aquelas suas declarações tinham sido feitas ainda sob o efeito do choque, quando se dirigia no comboio para Smolensk “num estado de completo desespero e desconcerto”.

 

Grupo de cidadãos polacos agradece:

No portal Onet.pl apareceu um texto intitulado “Spasiba!” (seria obrigado em russo, mas devia ser escrito com um “o” no fim em vez do a. A ortografia é secundária no contexto). Neste um grupo de cidadãos polacos agradecem aos russos a ajuda e a solidariedade, demonstradas na sequência do acidente aéreo de Smolensk. Como “filhos espirituais de João Paulo II” eles dizem que não podem deixar ficar sem resposta essa solidariedade. O texto foi assinado, ao longo do primeiro dia, por cerca de dez mil pessoas. Os autores afirmam que esta tragédia serviu para que os dois povos dessem um passo para se aproximarem.

 



publicado por edguedes às 16:34
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