as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007
RÚSSIA SEM “FACE”

 

            A partir de hoje entrou em vigor a moratória sobre a participação russo no acordo sobre Forças Armadas Convencionais na Europa (FACE). A primeira ameaça de que a Rússia poderia suspender a sua participação surgiu em Abril, quando Vladimir Putin fez o seu discurso sobre o “estado da união”, e em Julho foi assinado pelo presidente um decreto que, depois de ter passado no parlamento e se ter tornado lei, resulta na suspensão unilateral do acordo que agora se verifica. Putin justificou esta decisão com o facto de que os países membros da NATO não ratificaram uma adaptação do FACE, acordada em 1999 em Istambul, que reflecte a alterações geo-estratégicas, ocorridas depois da dissolução do Pacto de Varsóvia e da desintegração da URSS. O FACE, assinado em 1990, limitava a quantidade de armamento convencional da NATO e do Pacto de Varsóvia, e estabelecia inspecções recíprocas e trocas de informação. De acordo com uma nota de Julho do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, “o FACE, na sua versão actual, está irremediavelmente antiquado”, e sublinham que desde a sua assinatura, “já deixou de existir o Pacto de Varsóvia e a URSS”, e “ex-aliados da URSS uniram-se à NATO”. No entanto, os países membros da NATO põem como condição para a ratificação da “adaptação” de 1999, que a Rússia cumpra os compromissos assumidos, por aquela ocasião, de retirar as suas forças da Moldava e da Geórgia.

            O MNE russo voltou a escrever sobre o assunto hoje (dia em que entra em vigor a moratória) e que declara que “se deixa de fornecer informações assim como receber e levar a cabo inspecções. A Rússia, durante o período de suspensão do acordo, deixa de estar vinculada às limitações de quantidade de armamento convencional, incluindo nas regiões de flanco”. No entanto, o MNE russo afirma que Moscovo não tem intenções de concentrar tropas junto às fronteiras dos países vizinhos. Volta a lembrar que o acordo já estava completamente desactualizado e critica os parceiros pelo facto de que o acordo adaptado de 1999, continua por ratificar por parte dos países da NATO, “que ligaram essa ratificação ao cumprimento, por parte da Rússia, de exigências artificias, que não têm nenhuma relação com o FACE”. No entanto, diz que a moratória não é por si mesma um objectivo, “mas um meio de luta da Rússia para restabelecer as condições de vida do regime de controle sobre armamentos convencionais”. Os responsáveis pela diplomacia russa dão algumas sugestões para que se possa ressuscitar o FACE:

- pôr-se de acordo como compensar o potencial acrescido da NATO, em consequência do alargamento.

- estabelecer parâmetros de limitação quanto à instalação de bases militares noutros países.

- eliminar as limitações nas regiões de flanco no território da Rússia (são um impedimento à luta contra o terrorismo).

- garantir que o acordo seja assinado também pelos novos membros da NATO – Lituânia, Letónia, Estónia e Eslovénia.

- o mais depressa possível, e sem condições artificiais, fazer entrar em vigor o acordo adaptado, e começar a sua subsequente modernização.

 

O argumento dos “flancos” diz respeito à região do Cáucaso, onde a Rússia tem problemas de segurança, mas pode ter em vista também as regiões de fronteira com os países Bálticos. No que respeita ao Cáucaso, é um facto que o governo de Moscovo quer ter mão livre para poder concentrar forças na Chechénia, Inguchétia, Daguestão e noutras repúblicas onde o extremismo tem terreno adequado para se desenvolver, mas pode significar também uma concentração de tropas junto ás regiões separatistas da Geórgia, a Ossétia do Sul e a Abkhazia, o que certamente Tbilissi tentará contrariar com todo o empenhamento diplomático e recorrendo às suas boas relações com Washington.

 

O FACE tornou-se no instrumento de luta diplomática ou geoestratégica de Moscovo, para contrapor ao alargamento da NATO, que se pode vir a estender à Ucrânia e à Geórgia, e à instalação de bases do sistema de defesa anti-míssil norte-americano, na Polónia e na República Checa. Não é de excluir também que seja um elemento importante de campanha eleitoral, apesar de que, na campanha parece já ser desnecessário recorrer a quaisquer outros elementos de propaganda.

sugestões:

http://en.wikipedia.org/wiki/Treaty_on_Conventional_Armed_Forces_in_Europe

http://www.policyalmanac.org/world/archive/usnato_cfe.shtml



publicado por edguedes às 22:04
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