as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
A GEÓRGIA E AS ELEIÇÕES

 

 

            A Geórgia é uma terra que me desperta interesse. Tive algumas ocasiões de a visitar, mas confesso que não tive ainda um contacto directo com a Geórgia que se tem vindo a formar depois da “revolução das rosas”. No entanto, tenho acompanhado o que por lá se passa e estava a preparar-me para escrever alguma coisa sobre as passadas eleições presidenciais no Jornal de Notícias. Apesar disso, a certa altura, a situação pareceu-me tão confusa que achei que era melhor ficar quieto para não dizer asneiras. O motivo directo dessa inibição jornalística foi o aparecimento de uma sondagem, feito por uma organização ucraniana “Questão da Europa”, que previa a vitória na primeira volta de Levan Gatchetchiladze, com mais de 30%, e Mikhail Saakachvili, só com pouco mais de 16%, viria só em terceiro, atrás do milionário Badri Patarkatsichvili. Ou era uma sensação ou era uma vigarice. Parecia-me difícil acreditar que Gatchetchiladze, que eu tinha tido ocasião de ouvir directamente numa tele-conferência de imprensa, com um programa político que era essencialmente acabar com o regime presidencial na Geórgia, pudesse ter uma vantagem tão grande. Por outro lado, as sondagens fazem-se com critérios rigorosos, e podem ter erros de 2-4%, ou então não são sondagens, são tentativas de manipulação. No dia das eleições, a “Questão da Europa”, insistiu em apresentar resultados das sondagens à boca das urnas, que davam a vitória a Gatchetchiladze, enquanto as outras, financiadas pela televisão estatal, apontavam para uma vitória com pouco mais de 50% do presidente Saakachvili. A possível explicação destas discrepâncias, li-a hoje num artigo da “Novaia Gazeta”, onde se conta que o trabalho da “Questão da Europa” tinha sido encomendado pelo controverso  milionário (e intriguista) russo Boris Berezovski, amigo e parceiro de negócios de Badri Patarkatsichvili. As outras sondagens foram encomendadas, em tempo recorde, por quatro canais de televisão que apoiam o regime actual, depois da “Questão da Europa” ter publicado as suas primeiras previsões.

            Parece-me interessante focar ainda uma questão abordada pelo José Milhazes (http://blogs.publico.pt/darussia/) e que diz respeito ao coro internacional de aprovações e semi-aprovações da maneira como decorreram as presidenciais georgianas. A OSCE, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e o Parlamento Europeu, no comunicado conjunto emitido a 6 de Janeiro afirmam que “a eleição está na linha das exigências e dos padrões da OSCE e do Conselho da Europa relativamente a eleições democráticas e legislação nacional”. Uma aprovação mais moderada veio também da parte da Comissária Europeia para a Política Externa, Benita Ferrero-Waldner, enquanto a nova presidência eslovena da UE apelou à oposição georgiana para que aceite democraticamente os resultados. A Administração do presidente George Bush, reconheceu oficialmente as eleições presidenciais georgianas como bem sucedidas.

            Apesar de os observadores estrangeiros não terem visto quase nenhumas irregularidades, parece-me difícil que se possam considerar perfeitamente normais, eleições convocadas num prazo extremamente curto, em parte do qual no país vigorava o estado de emergência e com o principal canal de televisão crítico ao governo (Imedi) sem ter autorização para funcionar durante quase todo esse período. Resulta ainda que os “out-doors” afixados em Tbilissi eram quase todos de Saakachvili e que este tinha uma preferência nos canais de televisão privados e estatais. Em plena campanha eleitoral, um dos candidatos (Badri Patarkatsichvili) foi acusado de tentar organizar um golpe de Estado, com “provas” apresentadas nos meios de comunicação e declarações ao mais alto nível. Dois dias depois das eleições, um representante da oposição na Comissão Eleitoral Central apresentou publicamente “provas” de protocolos falsificados que favoreciam Saakachvili. Todas estas circunstâncias são bastante comuns no espaço da ex-URSS e quase que se pode dizer que não são de estranhar. Já foi muito que Saakachvili tenha suspendido as funções de presidente durante a campanha eleitoral. O que é mais curioso, é que às vezes as irregularidades do mesmo tipo são consideradas suficientes para que as eleições não possam ser consideradas democráticas, outras vezes correspondem na mesma “aos padrões europeus”.

            Enquanto eu meditava sobre estas coisas, vieram à tona mais duas notícias interessantes. Uma é a acusação por parte da Procuradoria Geral da Geórgia contra Saakachvili de tentar organizar uma tentativa de golpe de Estado. Contra ele testemunha um chefe de departamento do Minsitério do Interior, Irakli Kodua, que o milionário teria tentado subornar. O momento escolhido para apresentar a acusação tem duas interpretações. A primeira, “democrática”, é que acabaram-se as eleições e acabou-se a imunidade de Patarkatsichvili. A segunda, soviética, é uma mensagem para a oposição que, ou se acalma e aceita os resultados, ou se arrisca a acabar na cadeia. Esta segunda tem um exemplo paralelo na questão do ex-ministro Irakli Okruachvili, que foi acusado de burla e abuso de poder, depois de ter feito afirmações clamorosas contra Saakachvili. Foi solto depois de ter negado o que disse, mas quando, já na Alemanha, voltou às teses iniciais, o processo adquiriu dimensões internacionais, e agora arrisca-se a ser extraditado da França para a sua Geórgia natal.

            Entretanto Saakachvili avançou já com uma proposta de englobar no governo alguns representantes dos partidos da Oposição. Alguns observadores consideram que se trata de uma manobra para tentar dividir a Oposição que continua a não aceitar os resultados.

            O jornal alemão Frankfurter Rundschau, publicou uma entrevista com o diplomata Dieter Boden, que chefia a missão do Departamento de Instituições Democráticas e Direitos Humanos da OSCE, em que este teria admitido “violações grosseiras, negligência e factos de falsificações intencionais”, e que “na Comissão Eleitoral reina o caos”. Mais tarde, a missão de observadores da OSCE na Geórgia, desmentiu e afirmou que o jornal tinha distorcido as palavras de Boden, e que a avaliação continuava a ser a mesma de que as eleições tinham decorrido “num clima de livre concorrência e tinham sido leais”.

            Por seu lado a Oposição, pela boca de Tina Khidacheli, afirma que dispõem de provas de que os protocolos foram falsificados em 17 círculos eleitorais e que podem provar que 110 mil votos votam “acrescentados” a Saakachvili, o que corresponderia a 6% dos resultados. Ontem a Comissão Eleitoral Central anulou os resultados de quatro mesas de voto. A Oposição prepara uma manifestação “de 100 mil pessoas”, em frente ao parlamento. O município de Tbilissi autorizou.


publicado por edguedes às 17:16
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