as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008
HERÓI DO CÁUCASO

O nome deVitaly Kaloev é um dos mais conhecidos na república da Ossétia no Norte, no lado russo do Cáucaso. A notícia que hoje chegava de lá era que Kaloev tinha começado o seu novo trabalho como vice-ministro da Ossétia do Norte para a Arquitectura. Kaloev regressou à pouco tempo da Suíça, onde estava preso pelo assassínio do controlador aéreo, Peter Nilsen, considerado o principal responsável pelo acidente aéreo, ocorrido no verão de 2002, resultante de um choque de um avião russo, que efectuava um voo charter para Espanha, com um avião de carga da DHL. Kaloev perdeu a sua família, a mulher, a filha e o filho, nessa tragédia. No Cáucaso a “vingança de sangue” está profundamente enraizada, e não se trata só de se deixar levar pela raiva cega. Kaloev, agiu premeditadamente, foi descobrir o lugar isolado onde escondiam Nilsen, e a “vingança” teve lugar já em Fevreiro de 2004. Foi condenado a 8 anos, mas a pena foi encurtada para 5 e foi-lhe dada a liberdade provisória, por “comportamento exemplar e por não representar perigo para a sociedade”. Quando regressou à Ossétia em Novembro do ano passado, foi recebido como um herói. Foi o presidente da Ossétia do Norte, Taimuraz Mamsurov, que insistiu pessoalmente para que Kaloev aceitasse um cargo no governo daquela república. Segundo informações da Imprensa local, os colegas esperavam com expectativa o dia em que Kaloev começaria a trabalhar. Há alguns meses atrás, em conversa com Ella Kassaeva, da organização “Voz de Beslan”, foi-me confiada a admiração que “as mães de Beslan” nutriam por Kaloev e pelo seu “gesto de coragem”. Referindo-se aos ecos que a sua nomeação provocou na Imprensa helvética, Kaloev afirmou que “um jornal de lá viu a minha nomeação como uma afronta às autoridades suíças... mas o que é que se pode dizer da sentença de 6 meses com pena suspensa, que tiveram alguns culpados da tragédia em que morreram as nossas crianças”.

            O conceito de justiça dificilmente se consegue universalizar. O Cáucaso tem o seu modelo que não se adequa nem às leis russas, nem às leis suíças. Mas o facto é que, ao assumir-se em “juiz” na sua tragédia, não só cometeu um assassínio premeditado de alguém, cujo nível de culpabilidade ficou por apurar por inteiro, mas ainda privou o processo no tribunal do principal arguido e, provavelmente, da possibilidade de se conhecer exactamente o que se passou na noite de 2 de Julho de 2002, entre os aviões que sobrevoavam o lago de Boden e a sala de controle aéreo gerido pela empresa suíça Skyguide.


publicado por edguedes às 15:55
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