as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008
GÁS POUCO TRANSPARENTE

Entre Moscovo e Kiev temos outra vez guerra do gás. Não é de estranhar, desde a última campanha eleitoral na Ucrânia, que se sabe que Iulia Timochenko tinha intenções de meter o nariz nos acordos sobre o gás, assinados entre a Gazprom e a Naftogaz Ukraini. Timochenko considera “duvidosas” as companhias intermediárias que fornecem metano aos consumidores ucraniano. No caso presente uma das empresas intermediárias é a RusUkrEnergo, que em parte (50%) pertence à Gazprom, e outros 50% a outros investidores que se verá mais à frente. Outro intermediário que, se percebi bem recebe o gás do intermediário precedente e o distribui, é a UkrGaz-Energo, cuja propriedade está irmamente dividida entre a Gazprom e a correspondente ucraniana Naftogaz Ukraini. A criação de empresas “pequenas” que vendem ao cliente final ou compram aos fornecedores de uma grande companhia estatal, é uma prática comum, pelo menos lá para os lados da ex União Soviética. Frequentemente há uma tendência para que os quadros dirigentes destas empresas satélite tenho um grau de parentesco próximo com os dirigentes das correspondentes grandes empresas estatais. Mas não é isso que agora interessa.

            A Ucrânia compra gás da Ásia Central, ou seja, sobretudo do Turcomenistão. O tal país onde o anterior presidente desenvolveu um culto exacerbado da personalidade, e tentou convencer todos que viviam no melhor país do mundo. O metano é transportado pelos gasodutos pertencentes à Gazprom, mas a certa altura, antes de chegar à Ucrânia, torna-se propriedade da RusUkrEnergo. Deve-se dizer que a RusUkrEnergo é de facto “RusUkrEnergo AG”, uma respeitável empresa registada na Suíça, com um capital social de 100 mil francos suíços, e que além de ser 50% da Gazprom, tem ainda como proprietários, Dmitri Firtach (45%) e Ivan Fursin (5%). Consta da Imprensa russa, que Firtach, cuja carreira como empresário teve uma ascensão espantosa, foi (ou é) parceiro de negócios de Simion Moguilevitch, que recentemente foi detido em Moscovo, com uma desculpa mal amanhada, mas no fundo é porque era um dos homens mais procurados pelo FBI como representante do crime organizado (mafia). Isso não quer dizer que Firtach tenha alguma culpa, mas percebe-se que Iulia Timochenko prefira não ter intermediários a fornecer o gás.

            Bem parece que houve problemas com o gás da Ásia Central, porque o inverno foi frio, os investimentos na extracção são poucos, e o resultado foi que não chega para o que consomem os ucranianos. O resultado é que a RusUkrEnergo diz que teve de fornecer gás russo que custa 314,7 dólares por cada mil metros cúbicos, em vez do tal do Turcomenistão que custava 179,5. Não me perguntem porquê, porque a maneira como se formam os preços do gás no espaço ex-soviético é um mistério complicadíssimo, e depende de imensos parâmetros, desde quem é o intermediário, a quem é o cliente final, que relações é que ele tem com os amigos do presidente, etc. Os custos de extracção e transporte têm um papel muito secundário nesses cálculos. E agora vamos lá a perceber qual foi o gás que foi vendido à Ucrânia pelo preço turcomeno e qual pelo preço russo. Agora a Gazprom diz ainda que os ucranianos foram “ficando” com uma parte do gás que estava em trânsito e que não era deles, de qualquer forma vão ter que o pagar (ao preço russo, claro está). Bom o que se está a ver é que a probabilidade de vir a haver uma (ou duas, ou n) nova crise de gás com a Ucrânia, que se propaga aos países vizinhos, é muito grande.

            Problemas com o gás já havia nos tempos em que o presidente era Leonid Kutchma. Já nessa altura ele admitiu várias vezes que havia “desvios” de gás, quando a necessidade era muita e o dinheiro era pouco. Mas ele lá prometia ir pagando e eles lá se conseguiam entender. Agora que a chefiar o governo está a líder da “revolução laranja”, que continua a prometer que vai meter na linha todos os que andam a ganhar dinheiro à custa do gás e doutros recursos, a fazer críticas a Moscovo e a fazer olhinhos à NATO, não há boa vontade que chegue para amolecer os governantes russos. Digo governantes, porque a Gazprom é do Estado, ou melhor é uma parte do Estado, que financia as necessidades do governo e castiga os inimigos da pátria (com preços altos e cortes de fornecimentos, de preferência no inverno).


publicado por edguedes às 22:07
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