as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008
CHECHÉNIA 08

 

 

Eu tinha estado na Chechénia há oito anos, exactamente quando decorriam as eleições presidenciais que marcaram o início do primeiro mandato de Vladimir Putin. Ver a Chechénia oito anos depois enchia-me de curiosidade. O nível de destruição que tinha visto em finais de Março de 2000 era chocante. Não me lembro de ver um edifício em Grozny que não tivesse marcas da guerra. Pessoas eram pouquíssimas ou pelo menos não se viam na rua.

Praça Minutka 26.03.2000

 Grozny 2000

 

Durante anos a anunciada reconstrução da Chechénia marcou passo. Nos últimos anos houve progressos. É evidente que Putin não queria deixar a presidência sem apresentar pelo menos as fachada reconstruídas.

 

 

 

 

 

 

 

       Aeroporto de Grozny. Quem nos dá as boas-vindas?

 

 

 

  

 

 

 

 Actualmente de Moscovo há três voos directos para Grozny. São os três únicos voos que o aeroporto recebe, foi construído um novo terminal aéreo, moderno e sem olhar a despesas. Curiosamente quando se trata de recolher a bagagem o sistema é de regressar por uns momentos à pista e procurar a própria mala num molhe que ali foi deixado pelos bagageiros. À chegada o visitante é saudado por dois grandes placardes: Putin e Akhmad Kadirov. Vão ser uma constante em “cada esquina”. Akhmad Kadirov, o primeiro presidente da “nova” Chechénia e pai do actual presidente Ramzan Kadirov, foi o homem em que Moscovo apostou para uma política de normalização. Há muito que as autoridades dizem que o conflito na Chechénia acabou, mas para um jornalista poder lá ir tem de requerer uma acreditação especial e informar as autoridades dos seus planos. Quem vai de própria iniciativa arrisca-se a grandes dissabores. Dizem que é para a segurança dos jornalistas...

 

   Aqui eu comecei a notar algumas semelhanças entre Grozny 2000 e Grozny 2008. Na primeira o autocarro dos jornalistas era escoltado por dois carros blindados, uma carrinha e uma dezena de soldados. Agora o autocarro tinha uma escolta de três “jipes” da “OMON” (polícia especial), dois carros da polícia, e cerca de uma dezena de elementos da força de intervenção da polícia (os tais OMON).

Certamente também por causa da segurança o alojamento era no quartel da 46 Brigada do Ministério do Interior. Chamar-lhe quartel é favor, porque se trata de uma extensão enorme onde vivem 15 mil militares. O alojamento era numa residência dos oficiais, onde, como é tradição desde os tempos soviéticos os oficiais vivem com as suas famílias. O nível de conforto é militar. A disciplina também. O nosso “chefe”, um oficial que não andava fardado e dava pelo nome de Vadim, implicava seriamente com os que chegavam atrasados para o pequeno almoço e quase que nos fazia marchar até à cantina. Era uma forma de nos lembrar que estávamos na zona da “Operação Contra o Terrorismo” como se chama oficialmente a guerra na Chechénia.

No quartel da 46ª brigada.

  

          De resto Grozny apresentava-se, de facto, diferente. Dizem que é difícil encontrar actualmente casas com marcas da guerra. Difícil mas encontra-se. No entanto, tenho que admitir que foi feito um trabalho colossal de reconstrução. Abundam ainda os espaços vazios circundados por muros, nos sítios onde antes estava um edifício semi-destruído.

  O mérito da reconstrução é atribuído a Ramzan Kadirov. Dizem que ele encarregou cada um dos seus subordinados de reconstruir uma rua e a coisa arrancou. O dinheiro, em grande quantidade vai de Moscovo. O orçamento daquela república resulta, segundo fontes do governo checheno, em 70%, do governo federal. Em Chali, uma cidade a uns 60 quilómetros a sul de Grozny, gabam-se de terem reconstruído tudo em três meses, “graças a Ramzan”. O que não está muito claro é como tem sido a reconstrução das casas privadas. Teoricamente as pessoas que tiveram a sua casa destruída devido aos bombardeamentos tinham direito a uma “compensatsia” (compensação) no entanto, este é um argumento muito pouco claro. Mussa um homem de 52 anos (a quem se daria pelo menos mais 10), de Chali, contou-me que foi à administração da cidade requerer a tal “compensatsia” e que lhe propuseram “fifty-fifty”, ou seja, metade do que lhe era devido ia para os bolsos dos funcionários. O pior, dizia ele, é que até agora não viu nem sequer os 50%. 

 

 

 

 

     Portas de Grozny.

 Entrada monumental na cidade pelo lado sul.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  As iniciativas que vêm em evidência são em geral atribuídas a Ramzan. O “Liceu Presidencial” que pretende ser a escola modelo do Cáucaso abriu no início deste ano lectivo graças a Ramzan. O novo hospital, que pretende estar à altura das clínicas modernas, foi possível graças a Ramzan. A Universidade têm um complexo desportivo oferecido por Ramzan.

            Quando, voltando de Chali parámos junto às “portas de Grozny” para fixar as imagens do “arco do triunfo” da Chechénia, a certa altura houve alguma agitação. Era Ramzan que tinha parado o seu mercedes preto no meio da estrada para falar com os jornalistas. É claro que no meio da estrada não se entra muito em detalhes e é mais fácil “despachar” as perguntas incómodas. O núcleo da mensagem do líder checheno era que “primeiro tivemos que tratar da segurança, agora vamos levantar a economia”.   

 

 

 

      O presidente.

 Ramzan Kadirov até para na estrada para falar com os jornalistas...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

     Os heróis.

Ao lado dos omnipresentes  Kadirov pai (Akhmad) e Kadirov filho (Ramzan) também aparece, de vez em quando Putin.

 

 

 

 

  

 O problema é que a Chechénia tem um desemprego entre os 50 e 60% (dados deles). O comércio vê-se a olho nu nas ruas de Grozny, desde os vendedores ambulantes, até à novas lojas que são muito, com um curioso predomínio de farmácias. A este propósito há um detalhe significativo que nos foi dito pela vice-directora clínica do hospital, Lisa Dareeva, que na Chechénia há actualmente um grande número de diabéticos e de doenças cardiovasculares, que ela atribui ao resultado do stress provocado pela guerra. Outro detalhe curioso o salário da médica, no topo da carreira: 6 mil rublos ou seja 167 euros. O chefe do serviço de anestesia ganha 5 mil rublos (139 euros) e uma enfermeira um pouco mais de 3 mil (83 euros). Em termos de comparação um dos soldados OMON da nossa escolta disse que ganhava cerca de 25 mil euros (quase 700 euros). Tem-se uma ideia da ordem de prioridades. Também o vice-reitor da Universidade de Grozny, afirmou que em termos de emprego dos licenciados, a situação é problemática e que muitos, depois de terminarem a universidade procuram trabalho nas forças armadas. Os mais sortudos arranjam emprego nas estruturas do governo da república.  

 

 

 

 

   Junto ao mercado de Grozny

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  dois elementos da nossa escolta durante a visita à universidade, de conversa com alguns estudantes

 

Uma nota comum nas maioria das pessoas que se encontra é de não deixar fugira a oportunidade de enveredar por uma Chechénia pacífica. Vera Umalatova, directora do tal “Liceu Presidencial”, que viveu meses numa cave, durante a guerra, onde se refugiavam 57 pessoas. Quando se lhe pergunta de quem foi a culpa daquela tragédia, diz de forma muito correcta, “somos todos culpados”. Mas sublinha que não conhece “nenhuma mãe, nenhuma mulher que actualmente queira vingança”. “A alma tem necessidade de perdoar”, afirma insistindo que agora “todos queremos paz”.

            Esta necessidade de paz e de poder viver, de poder estudar, de poder trabalhar (esta parece ainda difícil) tem coagulado a população em torno de Ramzan. Parecem dispostos a esquecer métodos e brutalidades, desde que mantenha o país em paz.    

 

 

 

Faculdade de Medicina.

 

O lenço lilás é a farda para as meninas. O país é muçulmano.

 

 

 

 

 

 

  

   

 

 

 

 

 

 

 

   Nova mesquita.

Dizem que é a maior da Rússia.

 

 

 

 

 

 

 



publicado por edguedes às 21:57
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