as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
TEMPESTADE NUM COPO DE ÁGUA,

OU COMO DE UMA CITAÇÃO INCORRECTA PODE VIR UMA CRISE DIPLOMÁTICA  

 

 

    Ontem fui à conferência de Imprensa do representante da Rússia na NATO, Dmitri Rogozin, sem estar muito convencido de que valia a pena, o tema era o Kosovo e praticamente já se conhecem bem as posições de todos os “parceiros” internacionais. Voltei ainda sem estar muito convencido se tinha valido a pena. Curiosamente, vejo mais tarde na internet, que Rogozin teria dito que «Se hoje a UE adoptar uma posição unida ou a NATO ultrapassar o seu mandato no Kosovo, estas organizações desafiarão a ONU e nós também partiremos do princípio de que devemos utilizar uma força brutal, que chamamos de força armada, para que sejamos respeitados». Convencido de que não estive assim tão distraído durante a conferência (ligação video com Bruxelas) fui verificar. Efectivamente na citação faltam partes e falta o contexto, o que pode dar a entender que Rogozin ameaçava com uma intervenção armada no Kosovo, o que além do mais seria muito pouco realista. Parece que a notícia tinha sido difundida assim pela Interfax.

            Hoje de manhã a coisa já tinha dado a volta ao mundo e o vice-secretário de Estado norte-americano Nicolas Burns, acusava Rogozin de afirmações “absolutamente irresponsáveis” e exigia que o governo russo apresentasse um desmentido oficial das “afirmações cínicas e sem fundamento histórico do seu embaixador”.

            Rogozin fez de facto algumas acusações de peso ao afirmar que “provavelmente” a actual classe dirigente do Kosovo tinha beneficiado de financiamentos resultantes do tráfico de droga. No que respeita à intervenção armada da Rússia, ninguém que tivesse ouvido o que ele disse podia ter ficado com essa ideia. Aliás a RIA Novosti, onde foi a conferência de imprensa, deixa acessíveis no seu site as gravações, mas é evidente que a Administração norte-americana não se dá ao trabalho de ir conferir as notícias até esse ponto.

            Tratava-se de uma resposta a um jornalista sérvio que queria saber se a Rússia tencionava fazer mais alguma coisa. Rogozin respondeu com um tom ligeiramente irónico que “guerra não vai haver, de certeza, entre a Rússia e a NATO, por causa do Kosovo, isso eu posso garantir”. Mais adiante (estamos a chegar) afirmou: “Guerra não vai haver, mas um entendimento recíproco profundo e progressos noutras direcções (também não), porque existem agora pontos de vista diferentes sobre os conflitos e diferentes pontos de vista sobre como se deve comportar um Estado por bem (decente, civilizado) numa situação não simples. Os conflitos de pontos de vista são evidentes. Tenham em conta que o problema não está na Rússia mas nas relações com os sistemas de segurança internacional.

            Na ONU, a discussão sobre o Kosovo, não levou a que o ponto de vista da necessidade da independência do Kosovo prevalecesse no Conselho de Segurança. Pelo contrário os países que insistiam na posição de Pristina ficaram em minoria absoluta. O que é que isto significa? Significa que a UE, se conseguir concordar uma posição comum, ou a NATO, se for para além do seu mandato, definido pela ONU, se estas duas organizações entram em conflito com a ONU, então a coisa é séria. Já não se trata das relações NATO-Rússia, é já um conflito com o sistema de segurança internacional. Isso é uma questão que já não é diplomática, mas uma importante questão política. Uma questão do futuro. É a questão de saber se existem regras de comportamento decente entre os Estados, ou se se deve partir da política que quem tem força tem razão. Então para a Rússia isso também é uma conclusão a tirar. Então também nós vamos partir do princípio que, para que nos tenham respeito, para que nos compreendam, e reconheçam os nossos direitos a ter um ponto de vista, temos que ter força física grosseira, que se chama forças armadas, cujo dia festejamos amanhã”.

 

            Obviamente que a agência que tentou transmitir o “conteúdo”, transmitiu só as partes mais salientes, modificando o sentido geral.

            Antes Rogozin tinha dito, a propósito do reconhecimento da independência do Kosovo, que a Rússia não ia fazer mais nada. “É um erro estratégico tal como o da invasão do Iraque. Tentámos avisar ...”

 

            É óbvio que a posição russa só pode ser a de oposição teórica, sublinhando as questões de princípio, sem ter meios (talvez nem motivos) para tomar medidas contra os países que optam por apoiar Pristina.

 

            Quanto às exigências de Nicolars Burns, a resposta de Rogozin foi que “use fontes de informação mais fidedignas e que não espalhe mentiras”. O tom da discussão pode continuar a subir...



publicado por edguedes às 21:05
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