as coisas que conta um português que anda pela Rússia
Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008
CHECHÉNIA, RAMZAN, ELEIÇÕES E OUTRAS COISAS

 

 

            Uma reflexão que me ficou às voltas na cabeça depois da viagem à Chechénia, foi a de tentar perceber os motivos do apoio popular a Ramzan Kadirov. Certamente que não me convenci que o apoio possa chegar aos 99%, como indicavam os resultados das eleições parlamentares de Dezembro passado, mas pelos comentários das pessoas em Grozny e Chali, a grande maioria pôs-se do lado de Ramzan. Parece que não têm importância os métodos que usava a “guarda do presidente”, que ele chefiava quando era presidente daquela república da Federação Russa o seu pai, Akhmad Kadirov. Parece que também não sejam relevantes os “sinais exteriores de riqueza” que de repente apareceram nos hábitos da nova elite chechena, e que ninguém lhes queira perguntar donde lhes vêm o dinheiro. A “estabilidade” que agora a Chechénia tem, pode ser relativa, mas é a melhor que se conseguiu nos últimos 15 anos. Além disso, passou a circular bastante dinheiro, destinado à reconstrução daquela república. Uma coisa e outra significam para os chechenos a esperança de um futuro. Quem montou agora o seu pequeno negócio espera que a situação se mantenha como está, para o fazer crescer. Quem entrou para a universidade espera poder chegar ao fim dos estudos, sem outras atribulações. Já para não falar nas situações mais óbvias, das mães que esperam poder fazer crescer os filhos sem as angústias porque passaram em anos anteriores. Por isso não tem nenhuma importância o passado de Ramzan. “O presidente” é bom porque a situação actual é melhor de tudo o que experimentaram nos últimos anos.

            O exemplo checheno fez-me pensar também no caso da Rússia e do grande apoio a Putin e, agora, por tabela, a Medvedev. Obviamente, os russos em geral não tiveram de passar por situações tão trágicas como as que abalaram os chechenos. No entanto, de uma outra forma, a Rússia teve as suas crises, as suas “ruínas”, e falta de estabilidade, sobretudo depois do desmembrar-se da URSS, durante a década de 90. Os dois mandatos de Putin representam de alguma forma o regresso à estabilidade e, consequentemente, a esperança de que as coisas vão continuar a melhorar, de que o futuro será previsível, que se podem fazer planos para a vida. Obviamente que todos sabem que há muita coisa que está mal, mas preferem pô-las em segundo plano. Todos sabem que o sistema não corresponde aos padrões democráticos ocidentais, mas mantém a atitude de preferir que “não nos chateiem com essas coisas”. A esperança que resulta de se sentir mais seguros, mais “ricos”, mais fortes, empurra as exigências de democracia e de liberdade lá bem para o fundo das consciências dos cidadãos. Como me explicava uma vez um especialista em  “psicologia de marketing”, as escolhas das pessoas são quase sempre emotivas, depois vão arranjar os argumentos para justificar a escolha que já fizeram. Putin representa a intuição da segurança e da estabilidade, os argumentos e a propaganda só vêm dar uma ajuda.

            A pergunta que se põe é que, sendo assim, para quê os receios da classe no poder? Porquê o controle rígido dos meios de comunicação? Porquê as dificuldades que não permitiram as candidaturas à presidência de Garri Kasparov ou de Mikhail Kassianov? Porquê os obstáculos aos observadores da OSCE? etc. etc.

            Talvez exista uma resposta objectiva, que possa ser dada por pessoas mais competentes. Eu volto ao que vi na Chechénia. Se a situação na Chechénia é tão segura e tão calma quanto dizem, porquê a escolta da polícia especial? Porquê as evidentes medidas de segurança?

            Assim como na Chechénia preferem ter medidas de segurança a mais – nunca se sabe... – também a actual  classe dirigente russa prefere não correr riscos. Por isso é melhor que não haja candidatos independentes, que não haja demasiados observadores internacionais e que não se sintam demasiado à vontade, que não haja debates na televisão com “o candidato” (não vá ele fazer má figura), etc.

            Também essas medidas de “segurança a mais”, que podiam ser entendidas como um sinal de que alguma coisa não funciona, são relegadas para o “saco” das coisas que têm de ser toleradas, a bem da escolha que já foi feita a favor das “certezas” actuais. Quem se viu atrapalhado no meio do pântano tem receio de pisar em terreno incerto.



publicado por edguedes às 17:02
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1 comentário:
De Hugo Jorge a 28 de Fevereiro de 2008 às 17:08
gostei de visitar este blog


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