as coisas que conta um português que anda pela Rússia

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008
COMENTÁRIOS À CRISE

 

Há dois dias, Andrei Illarionov, deu uma conferência de imprensa sob o tema “Catástrofe iniciada”, onde falou, entre outras coisas, sobre a actual crise económica. Illarionov foi conselheiro económico de Vladimir Putin durante o primeiro mandato, mas tornou-se em seguida num acérrimo opositor do regime. Além disso é um liberal inveterado quando se trata de questões de macro economia. Sem subscrever tudo o que ele diz, eu queria citar algumas parte das suas declarações.

 

            ... Não há crise económica na Rússia... há uma diminuição do ritmo de crescimento.... Este fenómeno observa-se pela terceira vez desde 1998. Houve em 2002, houve em 2004, nessa altura foram períodos curtos de desaceleração da actividade económica, e não levou a uma recessão ou a uma crise económica. O que vai haver este ano? Veremos. Não penso que esta desaceleração seja longa e muito profunda.

Muitos prognosticaram uma recessão nos EUA, o que levaria a uma crise global. No entanto, nos EUA não há recessão. A recessão começou onde não tinha sido prevista. Começou na Europa e, no presente, a Itália e a Espanha já estão há dois trimestres com indicadores de crescimento negativos, e nos próximos tempos podem-se-lhes juntar a França e a Alemanha.

...Crise do mercado de acções. Crise do mercado há, quer nos EUA, quer na Rússia. Mas a escala dessa crise, a profundidade dessa crise, é diferente nos dois países. Nos EUA os índices actuais encontram-se abaixo do máximo, que foi atingido em 19 de Maio deste ano, de 32%. O indicador russo RTSI, na sexta-feira, encontrava-se abaixo do valor de 19 de Maio, em 72%. Há uma grande diferença entre uma diminuição de 32% e uma de 74%. ... a Rússia é recordista da queda da bolsa, só perdendo o primeiro lugar nalguns casos com a Ucrânia, onde houve uma crise governamental... A queda da nossa bolsa é duas vezes mais profunda do que o que se passa com os países com uma economia em desenvolvimento. Se compararmos com a queda do preço do petróleo, vê-se que a queda dos preços do petróleo foi mais modesta do que a queda da bolsa na Rússia...  É evidente que os investidores consideram que o que se está a passar na economia russa é muito pior do que o que se passa nos outros países, à excepção da Ucrânia. Isso significa que além das causas comuns, é preciso prestar atenção às causas que existem na Rússia.

... Estas crises podem-se considerar quase normais, que aparecem de tempos em tempos no mercado accionista, crises que estão ligadas à liquidação de investimentos errados. O que transformou este tipo de crises, algumas vezes, em crises económicas catastróficas foi a reacção das autoridades às crises financeiras. E aqui têm parte de culpa quase todos os governos, começando pelo dos EUA, dos países europeus e da Rússia.

Agora as autoridades destes países começaram a investir recursos gigantescos para apoiar o sistema bancário, para suster o mercado de acções, para apoiar os investimentos pouco eficazes que nos anos passados. Isso diz respeito aos EUA, à Europa e ao nosso país. Mas há diferenças, que dizem respeito à escala. O pacote que foi discutido e aprovado pelo Congresso dos EUA prevê a concessão ao longo de uma série de anos de um montante de 700 mil milhões de dólares, o que corresponde aproximadamente a 5% do PIB. As autoridades russas concederam um montante que, de acordo com o que foi anunciado ultimamente, corresponde a 12% do PIB, ou seja, 2,5 vezes o que as autoridades americanas decidiram.

A intervenção das autoridades americanas e europeias enquadra-se no contexto da intervenção estatal para apoiar todos... A situação russa é mais complicada, deste ponto de vista. Porque as autoridades russas não só concedem fundos para apoiar as decisões ineficazes numa escala que já é 2,5 vezes o que é feito pelas autoridades americanas, mas junto com isto resolvem uma outra “tarefa”. Eles concedem esses fundos a um círculo restrito de bancos e de corporações, em parte estatais, em parte privadas, em parte com um estatuto pouco claro, mas de qualquer forma, trata-se de companhias e bancos que têm uma relação privilegiada com o poder... Ou seja, o processo que se passou no âmbito político russo, o estabelecimento por parte das autoridades do monopólio no mercado político, agora realiza-se com o auxílio de recursos enormes, das reservas de divisas, das reservas de estado, dos recursos do orçamento do estado, concedendo a um círculo restrito de companhias e bancos, próximos das autoridades russas, para levar a cabo um controle quase um monopólio, sobre a economia russa. Isto é de facto uma catástrofe.



publicado por edguedes às 17:33
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