as coisas que conta um português que anda pela Rússia

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
O GÁS DO FUTURO

 

Já há mais de vinte dias que as minhas possibilidades de escrever para o jornal são à roda da questão do gás. Estava a pensar que agora que a coisa parece que chegou ao fim, ou seja, que o gás voltou a chegar à Europa e à Ucrânia, era altura de reflectir sobre a questão.

Hoje tive a ocasião de participar numa conferência de Imprensa sobre as alternativas europeias ao gás russo. Ao contrário do que estava à espera, foram ditas várias coisas interessantes. Elena Teleguina, directora do Instituto de Investigações Geopolíticas e de Segurança Energética, referiu alguns números curiosos, donde sai a conclusão de que, não só a Europa não vai gastar menos gás russo no futuro, como a maior parte deste vai ter de continuar a circular pela Ucrânia, por quanto isso possa desagradar aos cidadão da Rússia e da UE. A Gazprom é de longe o mais importante fornecedor da Europa, e isso não é uma novidade. Cerca de 25% do gás que se queima na Europa vai da Rússia. As reservas de gás da Noruega ou da Grã-Bretanha vão provavelmente diminuir. Elena Teleguina acha que a Europa não vai conseguir negociar os fornecimentos de gás “com uma posição única”. “Uma dependência de 100% são os países Bálticos, muitos países da Europa oriental que faziam parte da esfera de influência soviética, e o norte da Europa. A Alemanha depende em 43%, Polónia 62%, Áustria 72%. A Espanha não depende nada, a Itália depende pouco, Grã-Bretanha não depende nada. Esta situação não leva a crer que haja uma posição única e provavelmente as negociações vão continuar a ser bilaterais com cada um dos países.”

Os projectos alternativos que agora existem, são interessantes e... caros. “As principais alternativas são o “Fluxo do Norte” e o Fluxo do Sul (ambos projectos russos que evitam a Ucrânia), Nabuco, que contorna a Rússia, o qual até antes da crise não parecia realizável, dizia-se que era um projecto exclusivamente político, hoje há muitas mais perguntas quanto aos custos e realização do Nabuco. Há a possibilidade do Gás líquido, e agora volta-se a falar intensamente do projecto trans-sahariano, da Nigéria e através da Argélia, pode-se conseguir um fornecimento suplementar de gás”.

A questão é que quando se compara o gás que passa pela Ucrânia com os outros percursos alternativos, juntando os vários projectos, vê-se que essas novidades todas, ainda são pouco. Pelos gasodutos ucranianos, incluindo o que lá fica, passam 175 mil milhões de metros cúbicos por ano. O gasoduto que vem da região do Yamal (norte da Sibéria ocidental) para a Alemanha, através da Bielorússia e da Polónia, tem capacidade para 33 mil milhões de metros cúbicos por ano. Nas mesmas unidades (Gm3/ano), o projecto russo-alemão do “Fluxo do Norte” (Nord Stream) deverá vir a ter capacidade para 55, e poderá entrar em funcionamento em 2010, se tudo correr bem. Enquanto que o projecto “Fluxo do Sul”, que poderá estar em função depois de 2013, terá capacidade para 32 Gm3/ano. “A UE pretende com a diversificação de percursos melhorar o quadro de dependência, e talvez o gás líquido do Médio Oriente possa representar a melhor possibilidade, não como alternativa, mas como uma ulterior fonte de fornecimentos de gás”.”Os projectos “fluxo do norte” e “fluxo do sul” são muito bons, permitem evitar o trânsito através da Ucrânia, mas são muito caros. É preciso arranjar cerca de 30 mil milhões de euros para a construção”. “Estes custos acabam por cair no consumidor europeu, e no contexto da actual crise bancária são financiamentos muito caros. Mas a vontade política de conseguir uma segurança energética, ajudam a realizar estes projectos nos próximos 5 anos, mas o custo vai ser alto”.

A Gazprom teve um lucro de 30 mil milhões no final de 2008, mas a situação piora no final do primeiro trimestre, porque seis meses de intervalo da ligação do preço do gás ao do petróleo vai levar a uma quebra dos preços para a Gazprom no mercado europeu. Portanto vai haver menos entradas e ainda os prejuízos da crise ucraniana”.

As energia alternativas, na opinião de Elena Teleguina, também não são a solução dos futuros problemas energéticos. “Energias alternativas podem ser a nova bolha. Vão haver grandes investimentos e vai ser um prazer muito caro, com uma aplicação limitada. Não podemos assegurar que mesmo depois de 2020, possa haver 10 12% de energia de fontes alternativas. 20% é um sonho, nem em 2030”.

 

A Europa não tem outra saída. A única coisa a fazer é conseguir condições de transito transparentes de forma a que o gás necessário chegue à Europa”.

 

Há ainda a questão do tão falado gasoduto “Nabuco”, que deverá levar o gás do mar Cáspio e da Ásia Central para a Europa. Segundo Elena Teleguina, “o Nabuco não é concorrente do Fluxo do Sul. A questão está ligada à possibilidade de utilizar o gás do Turcomenistão, mais ainda do que do Azerbaijão. Mas como a Rússia estabeleceu um acordo de longo prazo com o Turcomenistão, no transporte através do seu território, o Nabuco praticamente morreu”.

 

A conclusão é que nem a Rússia, nem a Ucrânia, mesmo se em graus diferentes, são substituíveis no contexto do fornecimento de energia à Europa, nas próximas décadas. Por isso, há que aprender a conviver com estes parceiros um bocado “difíceis”.

 



publicado por edguedes às 21:54
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

24
25
26
27
28
29

30
31


posts recentes

O GÁS DO FUTURO

arquivos

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

tags

todas as tags

links
blogs SAPO
subscrever feeds