as coisas que conta um português que anda pela Rússia

Domingo, 27 de Abril de 2008
KHRISTOS VOSKRESSE!

                    

 

“Cristo Ressuscitou”, é a frase que se lê actualmente à entrada das igrejas ortodoxas, e nas muitas faixas que o município de Moscovo mandou colocar na cidade. Na Rússia é Páscoa, e é a altura em que até os que se consideram pouco “fanáticos”, se cumprimentam com o “Cristo Ressuscitou”, ao que se responde “em verdade ressuscitou”.

            Este ano a Páscoa ortodoxa veio mais de um mês depois da Páscoa católica, ao contrário do que tinha sido no ano passado, em que calharam no mesmo dia. As questões das diferenças do calendário podem parecer problemas de menor importância, no entanto despertam-me alguma curiosidade. O motivo pelo qual a Igreja Ortodoxa Russa se regula por outro calendário, que não coincide como o dos países ocidentais, e desde 1918 não coincide com o calendário civil em assumido na Rússia, é um tema relativamente conhecido. A reforma do calendário juliano feita pelo papa Gregório  XIII em 1582, não foi aceite pela Rússia, porque a Igreja Ortodoxa não reconhecia a autoridade do Papa. Essa reforma levou a fazer um salto de 10 dias, para repor o dia de referência do Concílio de Nicea (em 325 e. C.), 21 de Março, a coincidir com o equinócio da Primavera. Além disso foi introduzida uma correcção adicional que levou a retirar o dia a mais do ano bissexto em cada cem anos (1700, 1800...) excepto quando o ano é divisível por 400 (p.ex. 1600 ou 2000). A questão é que um ano solar tem 365,2425 dias. É quase mais um quarto (daí acrescentar um dia em cada quatro anos) que fica a sobrar aos 365 dias (0,2425), mas não é bem (para 0,25 falta-lhe 0,0075). As correcções do calendário gregoriano correspondem a ter em conta essa pequena diferença. Por isso, hoje a Igreja Ortodoxa tem um calendário que anda com 13 dias de atraso, o que leva a que o Natal (25 de Dezembro pelo calendário juliano) seja a 7 de Janeiro segundo o calendário gregoriano.

            No entanto, sempre que eu quis saber porque é que a Páscoa às vezes está mais perto da Páscoa católica e outras vezes mais afastada, quase sempre a resposta, mesmo da parte de pessoas com uma boa cultura religiosa, era que “é muito complicado”.

            Desta vez eu tentei saber mesmo os porquês, destas variações, e encontrei algumas explicações. A ideia da data da Páscoa vem do facto de os Evangelhos dizerem que Jesus foi crucificado na véspera da celebração da Páscoa judaica, e esta era, segundo o calendário lunar que então usavam, no dia 14 ou 15 do mês de Nisan. Como os meses do calendário judaico começavam com a lua nova, pode-se dizer que deve ser no 14º ou 15º dia depois da lua nova. A Páscoa cristã foi decidido que seria o primeiro domingo depois da primeira lua cheia, que se segue a 21 de Março.

            Por aqui já se percebe que o efeito conjunto dos 13 dias de diferença e das luas, levam a que a Páscoa do calendário juliano e a do calendário gregoriano, andem para trás e para a frente de diferentes maneiras.

            Para calcular quando é que vai ser a Páscoa no próximo ano, é preciso saber quando vai ser a “lua cheia pascal”. Classicamente recorria-se a tabelas, mesmo se há a possibilidade de recorrer a cálculos que permitem chegar lá.

 

            Só algumas indicações:

 

            As fases da Lua calham nas mesmas datas cada 19 anos. Pode-se calcular um número para casa ano de 1 a 19 chamado “número de ouro”  (golden number). No calendário juliano, com esse número pode-se determinar a “lua cheia pascal”, recorrendo a uma tabela, e a Páscoa será no domingo seguinte. Ao que parece o método tem imprecisões, que requereram algumas correcções, feitas com recurso a um outro número dito “epacta”, e com este usar outras tabelas.

            No calendário gregoriano as coisas complicam-se por causa das correcções adicionais introduzidas. O “epacta” tem de sofrer várias correcções e feitas essas recorre-se ainda a outras tabelas.

As tabelas e a maneira de calcular os “números mágicos” não as vou pôr aqui. A coisa é interessante, mas admito que só para alguns curiosos. Eu queria só confirmar que existe uma lógica (e talvez também alguma falta de lógica) quando a Igreja Ortodoxa celebra a Páscoa numa data que varia de uma forma diferente da da Igreja Católica.



publicado por edguedes às 21:51
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